Dia a Dia: O Primo que ensinava nadar

27 de dezembro de 2019

A mágoa fez casa no coração de Zequinha. Nunca mais se falaram. Nem mesmo o tempo abrandou seu ressentimento. A infância e a adolescência ficaram perdidas no tempo, embaixo das cachoeiras, pedras e imbiris das várzeas do rio.

Nasceram na fazenda dos avós. Um lugar repleto de cachoeiras e piscinas naturais, no seio da Serra da Canastra, divisa com a Serra do Carvão.

A menina, a neta preferida, era para a avó que nem orvalho na folha do inhame… Uma gota prateada escorrendo graciosa sob as verdes folhas, causando-lhe um delicado efeito. Ali naquela fazenda havia serviço o ano inteiro. Produziam queijo canastra, polvilho e farinha de mandioca. Os pais trabalhavam e a meninada corria solta, desfrutando dos passeios a cavalo, frutas e principalmente dos banhos de rio.

Com Mariinha era diferente, a avó vigiava e recomendava:

— Ô minha fia, ocê num vai andá a cavalo nesse solão quente de jeito manêra, inda mais junto cum essa mulecada. Docê ieu qui cuido.

A menina obedecia. A vontade da avó era lei.

Da janela via a algazarra, todos a brincar, às vezes descia as escadas e se juntava à turma, mas era logo censurada:

— Mariinha! Minina muié num brinca cum minino home não!

— Ah, vó… A Lia mais a Darvinha tamém tão brincano…

— Oia aqui, iscuta bem o qui tô dizeno! Si a mãe dessas minina num cuida das fia, ieu cuido docê, fica lá dentro de casa, assenta dereito nesse banco, puxa essa saia e tampa esses juêio.

Apesar da obediência cega, uma coisa deixava a menina muito curiosa, pois ouvira as primas de cochicho dizendo que era muito bom nadar. Zequinha, o primo mais velho, assoviava a fim de reunir a turma para o passeio. Viu a Joaninha, a Lia e a Dalva indo aprender a nadar com o primo. Até chegou a perguntar para a Lia sobre as idas ao rio:

— Uai Mariinha. Ocê tem qui pidi pru Zequinha pá mode ele ti insiná, ieu num sei ixpricá não.

Foi também procurar a Joaninha e não entendeu quando esta ficou corada:

— Quem é qui ti contô que ieu sei nadá? Oia aqui prima, ieu num alembro disso não. Mi isquici faiz tempo.

A menina, com o passar do tempo, tomara feições de mocinha. Voltava ela do curral quando se esbarrou com Zequinha, que nesse instante já lhe demonstrou súbito interesse. Logo ela a quem ele nunca dera confiança, foi logo puxando prosa dizendo o quanto estava crescida, até falou da sua beleza. Ela estranhou quando dias depois veio o convite do mesmo:

— Mariinha, ocê sabe nadá?

— Ieu não. Nunca entrei n’água só fui no rio cá vô levá armoço pás lavadêra.

— Ocê tem vontade de aprendê?

— Ara sô, cê inda prigunta? Craru qui tenho, ocê acha que ieu dô conta?

— Oia aqui, suzinha ocê num dá conta não, mais ieu posso ti insiná quarqué dia desses…

— Qui bão! Ieu posso chamá as minina pá i junto cum nóis?

— Dexa as minina… És vai só istrová nóis, além do mais, já aprendero a nadá, ieu memo qui insinei. Ieu gosto de insiná é quem num sabe.

Foi marcado o primeiro dia da tal aula. Seria no Poço das Orquídeas. Era longe, porém lindo, cercado de flores. A água era fresca, havia ainda a cachoeira que completava o cenário.

Ela mal dormiu de tanta ansiedade; agora se juntaria à turma, aprenderia a nadar também.

Acordou cedo e se arrumou como se fosse para uma festa: botou o vestido novo de chita vermelha, penteou os cabelos compridos, fez duas tranças finalizando com aquele laço de fita novinho. Estava se sentindo uma moça naquela roupa, colocou seu chapéu de palha. Não saiu sem antes pegar na despensa uma merenda e colocar numa cestinha.

Feliz da vida, desceu cantarolando pela encosta. Lá na frente avistou Zequinha que já lhe esperava.

Juntos deram a volta e passando pela pinguela. O poço ficava do outro lado.

Por um instante os dois olharam para a água sem se falarem, até que ele quebrou o silêncio dizendo:
— Nóis veio aqui pá nadá ô não?

— Ah Zequinha, pensando bem ieu num sei não. Ieu tenho medo de água fria…

— Larga mão de sê besta Mariinha, ocê num qué aprendê?

— Ieu quero, uai!

— Bamo intrá logo no poço, a gente começa na rasura…

— Intão bamo…

 

Mariinha colocou a cesta no chão e se encaminhou para o poço.

Zequinha ficou bravo:

— Peraí, ocê num vai mi dizê que vai nadá de vistido novo né?

— Num vô não, ieu vô tirá esse vistido.

Zequinha abriu um sorriso satisfeito, mas logo estranhou:

— Pera aí prima… Quê ocê tá ideiano?

— Uai, ieu num ia nadá de vistido novo pá istragá ele, intão vim cum vistido véio pru baxo da rôpa pá mode ieu nadá cum ele.

Zequinha impaciente:

— Ô minina, a gente num nada vistido de rôpa não…

Ela indecisa:

— Cumé qui ocê nada intão?

— Ieu num gosto de moiá as rôpa, ieu tiro tudo e dêxo nas pedra…

—Tá bão, Zequinha, vô tirá o vistido mais ocê tem qui mi ajudá. Num dô conta de disabutuá vistido suzinha e a vó tá demorano…

Zequinha que já vinha prestativo e muito animado para ajudar parou intrigado:

— Cê falou qui a vó tá demorano? Qui diaxo de história é essa?

— Uai. Onte ieu fui pidi a vó pá vim nadá cocê hoje. Inté ixpriquei prela que fartava só ieu, pois ocê já tinha insinado às minina tudo. Aì ela dexô… Mandô ieu vim na frente e foi chamá o ti Antonho seu pai… Ô Zequinha, ieu acho que a vó tamém qué aprendê a nadá…

Mariinha ainda tagarelava quando notou que o rosto do Zequinha se empalideceu. Ele viu vó Luzia com uma varinha de marmelo na mão. Ela descia o morro acompanhada do filho Antonio, pai do Zequinha. Este já se apressava em desafivelar a cinta. Porém, nenhum dos dois estavam com cara de quem queria aprender a nadar…

 

MARIA MINEIRA é autora do livro “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”.