Dia a Dia: O passador de manta

21 de dezembro de 2019

O Jovino Quinhentorréis morava numa dessas beiras de rio hoje tomadas pelas águas da represa de Furnas. Vivia de negociatinhas miúdas adonde pudesse pegar um bobo na rede ou passar a manta nos mais espertos. Se ele não pudesse com o freguês, simplesmente tratava o negócio, levava a mercadoria e depositava a conta no prego de São Nunca. Não conseguisse o intento subia-lhe a pressão, dava diarréia e até febre. Desde que uma vez perdeu uma moeda, assim uma pratinha de pouca monta, e os sintomas surgiram assim de repente, correndo até risco de vida, fizera, então, “questã” de costurar a algibeira reforçada da calça de algodão com um fiapo de embira, exigindo-lhe tempo se quisesse pegar algum trocado mas azar de quem tivesse de esperar.

Rareavam-lhe as oportunidades, conhecidas suas safadezas. E tantas que, certa vez, no atravessar da balsa lá da Barra um enganado do Quinhentorréis topou com o velho pai do próprio e soltou os cachorros:

– O sinhô num tem vergonha di tê criado um fio cum a vileza do seu? Ele tá pondo nódea na tradição do povo daqui de pagá os cumprumisso tratado. Deve prá todo mundo e ninguém tem mais isperança de recebê. Quem vai pagá? O sinhô?

– Ieu? Di jeito ninhum. Já falei proceis tudo mode num fazê negoce cum Jovino. Num é di cunfiança. Ieu memo quando ele mi percura, prifiro dá o qui percisa sinão si ieu dé de querê negociá cum ele acabo perdeno munto mais qui divia e ia dá.

Contam que o Quinhentorréis jamais abria a mão. Nem prá cumprimentar! Sua mãe gostava de acompanhar a missa dominical no rádio inglês que dominava a sala de visita e pedia ao filho que regulasse a estação de ondas-curtas que teimava na chiadeira. Ele também se deixava levar pelo sentimento de piedade mas, invariavelmente, dava um jeito de desligar o rádio na hora que o padre mandava fazer a coleta e assim não ter nem mesmo a obrigação moral de contribuir.

Tinha resposta para todo tipo de aperto onde tivesse de desembolsar. Uma vez, sozinho em casa bateram na porta e ele reconheceu a voz que se anunciou como a de um conhecido cego/mendigo.

 – Ô de dentro!

 – Ô de fora!

 – Aqui é o Candinho cego.

 – É esmola?

 – É.

 – Intonce pode jogá dibaixo da porta qui dispois ieu pego!

 

Certa manhã, acordou com diarréia, corpo quente e pressão nas alturas sem qualquer motivo aparente pois deitara saudável “iguale um coco”. A mãe preparou a infusão de ervas, o chá de manjerona e o unto para esquentar os pés.

 

– O quiéqui si assucedeu, fio, mode ocê prostá ansim?

– Foi um sonho ruim, mãe. Sonhei qui tava vendeno uma partia de bizerro prum istranho ricaço. Rico e zonzinho de abobado. Cada animar num valia mais que cinco merréis e ieu pidi quarenta. Ele achô pesado e ofereceu quinze. Ieu amarrei nos trinta e cinco já sabendo que ia passá a manta. Valorizo os bicho daqui… ele disvaloriza di lá mais quais chegano numa média de vinte e cinco por bizerro. Cinquenta cabeça. Ia dá um lucro di mais dum conto de réis. Foi aí qui apercebi qui era sonho pruquê a dormida deu di raleá cum canto do galo. Curri prá cima do ricaço i ele quiria pagá di cheque. Priguntei si ele num tinha pelomeno uns cinquenta merréis no borso qui ieu intregava a bizerrada tudo. Na horica qui tava contando as nota na cartera i ieu de mão istindida, num deu prá segurá mais i acordei. Tentei vortá no sono… sentei a cabeça no pau da cama… nada. O home i os bizerro já tinha tudo ido imbora i… sem pagá. Foi aí qui já principiei a cagá na carça i só vô miorá si a sinhora cuzinhá aquele mardito galo cantadô!!!