Dia a Dia: Espertão

4 de janeiro de 2020

O bar fica constantemente agitado com turma que ali vem todos fins de tarde para derramar suas cervejotas. Conhecem-se bem pelos apelidos, defeitos e chaturas, mas, igual a um casamento de interesse, não importa se bem ou mal sucedido, não se largam. O primeiro que sai sofre as malediscências de praxe, de modo que o bar tem fechado cada noite mais tarde para desespero do Ursão, proprietário do estabelecimento numa indeterminada esquina do Umuarama.

Umbigo pregado no balcão, grandão justificando a analogia com bicho peludo, humor mais propenso aos xingatórios do que ao sorriso e teimoso, muito teimoso. Tão teimoso que sua opinião tem de ser a derradeira e acima da qual nenhum parecer de especialista no assunto pode se sobrepor. A Dona Tica corta um riscado para contornar as batidas de pé do Ursão que insiste em desobedecer as restrições médicas impostas depois de uma insuficiência respiratória. Na crise, jurou nunca mais comprar um cigarro e, para não contrariar a jura, passou a comprá-los em pacotes nem bem lhe deram alta no hospital; instado a um controle mais efetivo da dieta – “nem te ligo!”- come igual um condenado cujo último desejo seria morrer empanturrado. As calças passaram do último furo e nem se fecham na barriga, caindo virilha abaixo, expondo partes da poupança em alguma sentada com mais desajeito. Se, por acaso, um dos mais chegados lhe adverte dos abusos e extravagâncias cometidos, logo vem um:

– E daí? Que que ocê tem com isso? E se eu quiser durar só até o fim do ano vai te incomodar?

Não suporta sovinices nas despesas rachadas por ocasião de um almoço ou de um tira-gosto feito na hora.

– Morre de fome, mas o da-nado não come. Se for de graça, come tudo e ainda leva o resto prá casa!

Sabedor da mão fechada de um frequentador e quando este prometeu trazer uma leitoa num sábado qualquer (promessas de boteco!), pulou da cadeira:

– Nem precisa trazer! Eu faço questão de ir buscar essa leitoa pelado e a pé e ainda asso ela no bico da lamparina!!!

Mas estas teimosias trazem-lhe também problemas por achar-se conhecedor de todas as mazelas e tretas do mundo.

Cismou de trocar o carro – uma Belina 88 -, espalhou a notícia e logo na sexta-feira surgiu um marreteiro se propondo ao negócio, já de noite, a bordo de um Fusca 83. Se desvalorizaram mutua-mente, regatearam e a Belina acabou saindo por R$3.500,00 ficando o outro de lhe voltar R$1.000,00, o que foi feito no ato.

Sábado, antes do almoço, a turma chegou.

– Uai, Ursão! Trocou o carro? Quanto? Fez um bom negócio? Tá bão este Fusca?

– Eu não perco em negócio, sô! Me saiu por dois e quinhen-to e acho na hora que quiser uns quatro nele.

– Negoção! Você mandou um mecânico olhar esse carro antes de comprar?

– Prá que? Eu já vi. A lataria tá tinindo, olha lá. O ronco é de motor zero. Tudo nos trinques que eu não sou bobo.

Passado um tempo, alguém lhe grita de casa:

– Ô Urso! O Fusca não tá querendo pegar.

– Este pessoal não sabe nem ligar um carro!

 

Demorou-se lá prá dentro e daí há pouco o carro se arran-cou, na base do empurra e do tranco, dirigido por ele, rumo a uma mecânica. O profissional da oficina, velho conhecido, lhe cumprimenta:

– E aí, Ursão? Então foi você quem comprou o Vitaminado?

– Vitaminado???

– É. Esse fusca é conhecido assim como vitamina de tanto que já bateu e foi batido. O motor tá nas últimas, pedindo arrego. O carburador tem emperrado quase todo dia. O soalho tá assim de ferrugem! Suspensão arriada! Parte elétrica cheia de gambiarras! O outro quase comprador pelejou comigo prá arrumar estes defeitos mas não dei conta, não! Se você achar uns quinhentinho nele, entrega rapidinho e levanta as mãos pro céu!

Ah! A ojeriza do Ursão! Um formigamento subiu-lhe pelo pescoço, desesperou-se. E nem tinha se preocupado em pegar o endereço do antigo proprietário por ter certeza do excelente negócio, uma manta mesmo! De frente ao Fusca, xingou todas as gerações do espertinho batendo as mãos na própria cabeça, num gesto de reconhecimento da fria.

Mais tarde, seu menino saiu no carro e voltou andando, precisando se organizar um mutirão de resgate ao Fusca que se recusava a funcionar e mostrava isso soltando uma fumaceira preta por alguns segundos e pof…pof… silenciando-se, em seguida.

Ninguém se atreveu a um mínimo comentário com o Ursão e até os olhares tinham de ser comedidos, não deixando transparecer a vontade de rir geral.

Mas o danado conseguiu localizar o ex-dono da Belina que ainda detinha legalmente a sua propriedade e, relatando o engodo, tirou dele a jura de não fornecer o recibo. Campeou, inquiriu, descobriu um primo do cunhado do vizinho da avó da lavadeira e, na segunda, cedinho lá estava o Ursão na residência do marreteiro, bravo, ameaçando derrubar a lua na sua cabeça, com os mil reais na mão e atrás da sua Belina. O outro adivinhou, pelo estado selvagem do oponente, que uma negativa iria causar uma desgraceira sem fim e cedeu, desfazendo o negócio.

Duro foi suportar a carteação de marra do Ursão:

– Bem que ele tentou, mas ninguém me passa prá trás!!!