Dia a Dia: As roupas de baixo da Gertrude

20 de dezembro de 2019

Hoje em dia estão em desuso, mas a combinação e a anágua foram peças fundamentais do guarda-roupa feminino. Juntamente com a calcinha, eram denominadas roupas de baixo. Geralmente confeccionadas em casa, com todo capricho. Cheias de rendinhas, lacinhos e bordados. Mas nem todas as mulheres eram adeptas de tais peças. No tempo de minha avó, os vestidos e saias eram compridos e algumas senhoras usavam roupa de baixo, apenas nos dias de “precisão”, ou quando iam à cidade assistir à missa. Gertrudes, uma vizinha, era uma delas.

Gertrude era casada com o Zé Antônio. Moradores da Beira da Serra, ali também vivia um primo de meu avô, conhecido por Chico Surdo. o homem não escutava praticamente nada, apesar de falar e entender o que as pessoas diziam. Era solteirão e andava de fazenda em fazenda, realizando pequenos trabalhos, em troca de pouso e um prato de comida.

Gertrude, sempre fora meio moleca. Vivia trepada nas mangueiras, apanhando frutas para a criançada. Nem era bonita, mas o marido morria de ciúmes. Ficava doente só de pensar que outro homem, estivesse esticando os olhos pra cima dela. A contragosto, precisou contratar o Chico Surdo, para que o ajudasse a capinar uma roça. De qualquer forma ia ficar de olho nele! Nem ia deixar que dormisse na casa. Ajeitaria seu pouso na casinha de guardar arreios.

Certo dia, o Zé Antônio mandou Chico buscar água e acabou ficando com a pulga na orelha, quando este se demorou mais que o costume… Resolveu ir ver o motivo do atraso e tranquilizou-se quando, de longe, o avistou sozinho, debaixo da mangueira. Zé Antônio, não encontrou a mulher na casa, então resolveu ir até o quintal, indagar a algum dos filhos, onde estaria a mãe. Confuso, reparou que a esposa estava apanhando mangas num dos galhos mais altos, e o Chico Surdo, paralisado ali debaixo, feito bobo a olhar para cima. Seus olhos esbugalhados nem piscavam…

Zé Antônio chegou onde estava o outro. olhou para cima também e nessa hora gritou furioso:
— Girtrudeeee!!! Sua danada, fedazunha, excumungada, diacha de muié severgonha, sô! Desci daí, qui ieu ti mato! Cê tá aí im riba dessa arvi sem carça, sua marvada?! Daqui dibaxo dá pá vê tudo! Né pussive qui ocê é tão lerda, qui num viu qui o Chico tá de zóio cumprido na sua…

Gertrude, com um pé em cada galho, muito calma, olhou para baixo e rindo da brabeza do marido, disse:

 — Ô Zé Antõe… Larga mão de sê besta, homi! o quê qui tem ieu tá sem carça? Intão ocê num si alembrô qui o Chico é surdo?

 

MARIA MINEIRA. Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro: “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra” de Maria Mineira. E-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br