Dia a Dia: Análise de um século

10 de dezembro de 2019

Se não é fácil contar a história da vida de uma pessoa, imagine contar a de um século, especialmente, por ser o mais extraordinário e mais trágico da História da Humanidade. Após dezenove anos, vamos falar e refletir sobre o finado século XX, em cuja fase final nascemos e presenciamos alguns acontecimentos inesquecíveis.

 

Ele foi o período mais extraordinário da história humana porque, durante esses anos, a ciência e a tecnologia avançaram até níveis nunca antes imaginados. Basta lembrar que é o século do cinema e da televisão, da aviação, da ida do homem ao espaço, da terrível invenção da bomba atômica, da clonagem e da Internet.

Ele foi também o mais trágico, por ter sido aquele em que mais pessoas morreram em duas guerras mundiais, além de outras como a do Vietnam, do Afeganistão, da Coreia, das ex-colônias portuguesas e a Guerra Civil Espanhola. Foi quando a guerra passou a ser feita por aviões e com a utilização de bombas químicas e bacteriológicas, que são a vergonha da espécie humana.

Mas, para não falarmos somente de aspectos negativos, vamos nos lembrar de que este foi o século em que a Humanidade mais avançou em matéria de direitos e garantias para os cidadãos. Neste aspecto, pode-se dizer que foi o do triunfo da democracia, dos direitos humanos e da entrada plena da mulher na vida sindical, política e no mundo do trabalho, embora haja, ainda, sobretudo em continentes como a África e a Ásia, passos de gigante a se darem nesse campo.

Para compreendermos os tempos atuais, dos quais somos os protagonistas, e sabermos tomar as decisões fundamentais para nossas vidas, é indispensável compreendermos o que foi e o que representou o século XX. Sem se perceber o passado, é impossível ter-se uma visão acertada do que pode e deve ser o futuro. Percebemos, claramente, que foi um século de grande agitação, de grande inovação e mudanças, sendo que, em determinados setores, esses aspectos são mais visíveis, como nas comunicações.

 

Primeiramente, graças ao rádio, depois, a partir dos anos 50, à televisão, ao vídeo, ao fax, aos telefones, aos celulares, aos computadores e à Internet. Tudo isso mudou a vida das pessoas, os seus hábitos, a capacidade de se comunicarem, vencendo distâncias que pareciam intransponíveis. Houve um grande avanço no sentido técnico, colocando as pessoas em contato com as outras muito mais do que se poderia imaginar, mas, se conseguiu um enorme avanço tecnológico, no aspecto humano não podemos dizer o mesmo, pois a comunicação entre seres humanos não depende apenas da tecnologia.

 

Depende também e, sobretudo, do afeto. E aí, percebe-se que não avançamos nada. Pelo contrário. Nunca a solidão foi tão grande, nunca as pessoas estiveram tão sós e, ao mesmo tempo, tão cercadas de meios que fazem chegar a sua voz e a sua imagem onde querem. Isso significa que a máquina pode ajudar e ser um complemento, mas, na base, deve estar sempre o ser humano, as suas emoções os seus sentimentos. Uma pessoa pode ter à sua disposição todos os aparelhos, mas não ter amigos e parentes com quem possa se comunicar. E isso não há máquina, por mais sofisticada que seja, que possa resolver. E é bom que o homem perceba isso de uma vez por todas.

É óbvio que a tecnologia facilitou a vida das pessoas nestes anos. O ‘micro-ondas’, as máquinas de lavar e secar, o controle remoto, o ‘fast food’, o ‘delivery’, entre outros, descomplicaram muito a vida, mas, por outro lado, nunca a alimentação foi tão perigosa, com produtos químicos que provocam inúmeras doenças.

 

Hoje, é raro uma pessoa, pelo menos nos países mais avançados, chegar à idade adulta e não ter um automóvel, mas ele é, ao mesmo tempo, o principal poluidor e a causa dos intermináveis engarrafamentos nas grandes cidades, que transformam num inferno a vida de quem vai e volta todos os dias para o trabalho.

 

As pessoas ganharam qualidade de vida e acabaram por perdê-la, tendo cada vez menos tempo para ler, estar em casa com a família e descansar. A Internet permite contatar o banco, marcar as férias e encomendar a “pizza” sem sair de casa, mas é, também, um perigoso meio de comunicação, se mal utilizada.

Fica no ar, afinal, a pergunta: “se tanta coisa avançou nos domínios da ciência, da técnica e do conhecimento em geral, por que razão continua o ser humano a cometer os mesmos erros de sempre, a ser agressivo, e, tantas vezes, dominado pela inveja, pela cobiça e pela sede de poder? Se todos percebemos que é urgente proteger o meio ambiente e ser solidário, por que temos tanta dificuldade em praticar esses atos tão simples e tão essenciais?”