Dia a Dia: A rã que foi cozida

10 de março de 2020

O carnaval acabou há poucos dias e, após assistir e analisar cenas dessa festa tão popular no Brasil, especialmente em algumas cidades, mais uma vez fiquei meditando sobre as mudanças dos hábitos e da cultura que vêm ocorrendo ultimamente. Bons tempos os dos bailes de salão e das inesquecíveis ‘marchinhas’, que não saíram totalmente de moda. Como educador e pessoa atuante em diversas atividades sociais, não deixo de ficar ‘antenado’ às modernas tendências da cultura, da música, do teatro, cinema, além da real preocupação com o meio ambiente.

A televisão tem, sem dúvida alguma, uma força muito grande nessas mudanças. Basta ver as roupas ou os cabelos de personagens se tornarem populares num curto espaço de tempo. O tal de BBB, que detém uma audiência muito grande e vem mostrando, a todo tipo de público, alguns padrões de comportamento inaceitáveis há até certo tempo.

Há uma música de relativo sucesso que diz o seguinte: “Beijo na boca é coisa do passado, a onda agora é namorar pelado”…. ou aquela outra que diz: “Já beijei um, já beijei dois, já beijei três… perdi a conta de quantos eu já beijei”… Seriam ‘sinais dos tempos’?

Recebemos, hoje em dia, um bombardeio tal de informações que fica difícil discernir entre o que é verdade ou mentira, bom ou ruim, “fake news” ou fato. É preciso muito senso crítico.

Na política recente, como nunca antes neste país, fomos expostos a uma espécie de ‘doutrinação’ criada por Joseph Goebbels, Ministro das Comunicações de Hitler, baseada na ideia de que, “uma mentira repetida mil vezes começa a ser aceita como verdade, pois penetra no inconsciente das pessoas, como uma lavagem cerebral”. É o que acontece com certos ditos populares que vão sendo repetidos, geração após geração, e as pessoas acabam aceitando como verdades absolutas.

Se olharmos para o que tem acontecido em nossa sociedade desde há algumas décadas, podemos ver que estamos sofrendo uma lenta mudança no modo de viver, para o qual estamos nos acostumando. Uma quantidade de coisas que nos teriam feito horrorizar vinte ou trinta anos atrás, foi pouco a pouco banalizada e, hoje, apenas incomoda ou deixa completamente indiferente a maioria das pessoas. 

E vamos aceitando, sob a falsa ideia de que isso é normal. Por trás, certamente, há quem comande isso. Vem a indiferença a tudo e de todos. Pais, políticos, professores, trabalhadores, profissionais liberais, juristas, magistrados, cronistas…

Em nome do progresso, da ciência, do poder e do lucro, são efetuados ataques contínuos às liberdades individuais, à dignidade, à integridade da natureza, à beleza e à alegria de viver. Esterilização dos valores morais e políticos, da dignidade, ameaça à integridade da natureza, falta de respeito a tudo e a todos. O ter substituindo o ser, e assim por diante: todas as mudanças sendo efetuadas lentamente, mas de forma inexorável, com a constante cumplicidade da sociedade que já se tornou vítima incapaz de se defender, aceitando as condições que conduzem a uma vida decadente, senão, dramática. As previsões para nosso futuro, em vez de despertarem reações e medidas preventivas, não fazem outra coisa a não ser a de prepararem psicologicamente as pessoas a aceitarem essa lamentável mudança. O martelar contínuo de informações pela mídia satura os cérebros, que não podem mais distinguir as coisas certas ou erradas, edificantes ou banais.

Lembrei-me, então, de um conto do escritor suíço, Olivier Clerc. Esta breve história, através da metáfora, põe em evidência as funestas consequências da não consciência da mudança que infeta nossa saúde, nossas relações, a evolução social e o ambiente. Diz ele: “Imagine uma panela cheia de água fria, na qual nada, tranquilamente, uma pequena rã. Um pequeno fogo é aceso embaixo da panela, e a água se esquenta muito lentamente. (Entendam: se a água se esquenta muito lentamente, a rã não se apercebe de nada!)

Continua na próxima edição…