Dia a Dia: A Marca do Polino

13 de dezembro de 2019

Dona Francisca já havia advertido o genro mais de uma vez:
 — Zé João… Ocê num vai lá no arraiá  mode marcá o batizado do Tunico?
 — Ieu vô sim minha sogra! Ieu num tô é teno tempo. É uma sirviçada danada aqui, condo a gente cumeça a aração das terra pá prantá as roça.

 — Oia qui, esse minino já tá passano da hora de batizá, é pecado dexá  crescê pagão.
 Zé João, foi ao fim da semana até o arraial procurar o sacerdote, a fim de marcar o batizado do filho. Estando os dois na sacristia, o padre já pronto para as anotações de praxe, interroga o lavrador:
 — Pois então, o senhor me diga o nome de seu filho.

 — A muié quis qui chamasse o nome do pai dela qui isticô as canela no ano passado…
 — Qual o nome? —indagou o padre
 — Uai, padre, o sinhô já s’isqueceu o nome do meu  finado sogro?
 — Quero saber o nome de seu filho, a fim de marcar o batizado do mesmo.

 — Nóis chama ele de Tuniquinho, pricisa vê qui mininim forte!
 O Padre insiste na pergunta:
 — Qual o nome inteiro do Tuniquinho, senhor José?
— Ahhh bão, é Antonho Aparecido da Sirva.

— Muito bem, meu filho. Agora me diga o dia do nascimento da criança.
— Ahh  padre, agora o sinhô mi apertô sem abraçá, ieu num sei não. Homi num tem cabeça pá alembrá esses trem, não sinhor.
O padre, nervoso repetiu a pergunta:

— Que dia e mês o seu filho Antônio nasceu?
— Ah, padre…Xô vê si ieu alembro… Foi num dia qui truvejô dimais, feiz qui ia chuvê, mais dispois num chuveu nadica. Alembro qui a Joana tava lá no quarto, sintino as dor do parto e nóis correno pá guardá o porvio qui tava secano no soli.

O padre furioso, perdendo as estribeiras repetiu a pergunta:
— Senhor José, vou repetir mais uma vez a pergunta! Fique o senhor sabendo que não estou aqui para brincadeira. Se não me responder agora o dia e o mês, seu filho Tuniquinho vai crescer  sem o sacramento do Batismo.

O lavrador aflito, coçou a barba, puxou pela memória e lembrou-se de mais um fato:
— Lovadosejadeus, ieu alembrei! O Tuniquim, nasceu num dia cedim, ieu inté tava amolano a inxada e a foice pruqué notro dia ia sê a “Marca do Polino.”

Então ficou fácil, o padre e também todas as pessoas sabiam… Era a marca para plantar as roças do Sr. Paulínio Leite, onde todos os moradores da região, fosse  donos de terras ou agregados, se juntavam em mutirão. Isso acontecia sempre todos os anos no dia oito de setembro.
Portanto a criança a ser batizada era do dia 7 de setembro!

 

MARIA MINEIRA. Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro: “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra” de Maria Mineira. E-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br