Dia a Dia: A luta do século

15 de fevereiro de 2020

A vida corria gostosa e despreocupada na Piumhi da minha infância. Rotina interiorana pacata, sem grandes sobressaltos. Água da Meia-Lua, inconstante na seca, barrenta nas chuvas; a luz, uma brasinha teimosa dentro da lâmpada, desaparecia ao barulho do primeiro trovão ou até mesmo se um cachorro levantava a perninha, se aliviando no poste de madeira; as radionovelas aguardadas, ansiosamente, em verdadeira briga dos chiados do velho aparelho de antenas espalhadas em espiral pela parede com as vozes guturais do Jerônimo, o Herói do Sertão ou do Anjo combatendo o crime na cidade grande (num oferecimento de Gessy-Lever e Auri-Sedina); em ranzinices normais dos caciques do PSD e da UDN; em brincadeiras de pique nas ruas calçadas de pé-de-moleque; as bravezas do padre Abel Vouguinha.

Notícias da vida de todo mundo, quem nasceu, quem morreu, inflação inexistente, enfim, um baita sossêgo e tranqüilidade.

Me lembro, como se fosse hoje, o dia em que aportou por lá, instalando-se atrás do Colégio Normal um circo mambembe prometendo espetáculos de teatro, palhaços e luta livre. Corre-corre danado, a população piumhiense inteira só falava naquilo e a meninada iniciou a pressão sobre os pais no afã de adquirir logo os ingressos.

Um alto falante ranheta lançava aos quatro cantos as atrações de estréia, espicaçando nossa curiosidade, desenhando na fantasia de cada um o sonho de assistir coisas inacreditáveis, protagonizadas por artistas famosos.

Lotamos o circo na sessão de estréia sob uma lona remendada, aboletados nas arquibancadas de madeira que mordiam a bunda da gente, enquanto a gente mordia a pipoca gordurosa ou namorava a tábua furada, espetada de pirulitos puxentos.

– “Respeitável público…”

O apresentador e dono do Gran Circo-Teatro , enfiado num terno preto ensebado, tentava dar à voz uma tonalidade grandiloquente e majestosa, num portunhol mais prá cearense do que o pretenso castelhano. Iniciou a função com um par de palhaços meio bebuns e sem graça, abusando dos palavrões e frases com segundas intenções mexendo com as encalhadas da platéia.

-”Ustedes van aora assistir un drama lhamado Coraçon de Madre: Los majores artistas del Brasil os levaron às lágrimas.

E seguiu-se um dramalhão, no qual o filho ingrato arrancou o coração materno e ofereceu-o a mulher amada, entre os fungares de nariz e enxugar de olhos dos assistentes. Enfim, o instante mais aguardado.

Num ringue rapidamente montado foram anunciados os dois primeiros contendores da luta livre, por coincidência, o mesmo par de palhaços que trocaram alguns golpes bem ensaiadinhos, terminando com um deles estatelado no tablado (acho que foi a pingaiada fazendo efeito.!). E aí, surpresa geral! Caminhando qual um gorila, surge a maior estrela da noite:

-”La carrasca Ssaaaloomééé, la Maaataadoora!”

Gorducha, cabelos desgrenhados, sorriso sardônico, caretado, olhar malvado, ela sapateou estrepitosamente no ringue e, em poucos minutos, estraçalhou uma jovem “sparring” para delírio das arquibancadas lotadas. Em seguida, pisando nas costas da derrotada, ergueu as mãos exigindo silêncio (prontamente acatada) e lançou o repto:

-”Daqui a cinco dias, estarei neste ringue desafiando o homem mais forte desta cidade. Tragam ele aqui que eu vou acabar com a sua raça!”

E arrematou, mexendo nos brios da homaiada:

-”Em Piumhi não tem macho prá me enfrentar!”

Foi um Deus-nos-acuda!

No momento, ninguém ousou o revide, mas o desafio calou fundo na platéia e, no outro dia, o ti-ti-ti rolou solto a cata de um cabra fortão qualquer que lavasse a honra coletiva tão ofendida. Formou-se comissão dos notáveis. Indicaram alguns nomes, no entanto todos refugaram a briga.

Até que bateram à porta do Zé Ferraz.

O brutamontes tinha duas lascas de braços acostumados ao batente do caminhão, fama de bom brigador, costas largas, andar pesadão.

(continua na proxima edição)