Desafio aos preconceitos do forró

26 de dezembro de 2019

Algumas portas são abertas por Mariana Aydar quando ela resolve voltar diferente a um lugar que sempre esteve lá. Seu novo álbum, Veia Nordestina, depois do mais denso Pedaço Duma Asa, uma visão das composições do artista visual Nuno Ramos, de 2015, atua pelo menos em três frentes que o tiram da região que poderia abrigá-lo com o conforto e a segurança da tradição para levá-lo um passo à frente no universo de um dos últimos gêneros de criação teimosamente formatada da música brasileira. Veia Nordestina tem um dos pés de serra no peso eletrônico, uma das falas na contestação do preconceito do próprio meio e todo um significado geracional. A paulistana Mariana, tecnicamente fora de seu “lugar de fala” por não ser nordestina, pertence a uma era de autores e intérpretes aplicada em construir códigos desconstruindo estereótipos e que, em geral, não tem um olhar tão afetivo para o forró como tem para o samba. Seu nome ganha cada vez mais força para arrastar o forró para além das casas de reboco.

Mariana diz que faz do disco um agradecimento a um povo que deu sentido à sua vida muito cedo, dos tempos em que a mãe, a produtora Bia Aydar, trabalhava com o próprio rei do baião, Luiz Gonzaga. “Ele era para mim um misto de papai Noel com Elvis Presley e eu sempre pensava: ‘Mas o que será que esse homem faz?’. Meus amigos foram feitos no forró, meu filho é filho do forró”. A sanfona de Mestrinho chora no baião com cheiro de saudade de Dominguinhos no final do disco. “Vira teu mato te cobre de festa, vem brincar / que todos os dias tem gente querendo domingar / mas quando anoitece o fole não abre pra falar / Sertão inundado não mata minha sede, saudade. Saudade, aquela que dói e que fere, saudade machuca e nem olha pra traz”.

Sobre ser paulistana, ela diz que jamais sentiu-se desautorizada por qualquer ala tradicionalista, algo que não seria tão assustador nos dias de hoje. “Já fiquei receosa por isso, mas nunca ninguém me disse algo assim. Nós temos que tirar a regionalidade das coisas, o forró não tem mais território. O lugar de encontro do pé de serra mais procurado é em Itaúnas, no Espírito Santo, não no nordeste”. O que se ouve em Veia Nordestina, música sua e de Isabela Moraes, carrega um pouco daquilo que Dominguinhos fazia. Ele não cantava para o homem que vivia no sertão, mas para o sertão que habitava todos os homens. E lá vem a sanfona de Mestrinho anunciar Mariana. “Na veia nordestina, eu tenho a minha visão / carrego emprestada a força do sertão…”.

Existe uma embolada curiosa de samba com baião em Na Boca do Povo, de Fernando Procópio e Tinho Brito, e na letra está a maior “subversão” a alguns estados de pensamento. “Tem coisa que é ruim de engolir / Que não entra na caixola / Tipo homem que gosta de homem / O que que ele é? (Boiola) / É homem igual qualquer homem / Deixa de ter preconceito / É um ser humano / Por isso esclareço / Merece apreço, merece respeito”. E assim segue para falar das mulheres: “A mulher que pega todo mundo o que é que ela é? (Piranha) / Se engana na reflexão / Quem responde a questão logo assim de primeira / A menina que zoa um montão sem dar satisfação pra ninguém é solteira”. E para falar de uma política de Estado: “Outro papo que muito se fala / E marca escala mas é papo torto / Que o melhor é se encher de bala / Que bandido bom (é morto) / Não sou defensor de bandido / Mas pensa comigo isso não satisfaz / Pra gente bandido bom / É bandido que deixa essa vida pra traz”.

Mariana conta que sua relação com o forró sempre foi de subversão desde os anos de Caruá, de 2001 a 2003, seu primeiro grupo, que veio justamente com a proposta de tecer os baiões, xotes e xaxados com novas malhas criadas por instrumentos nem sempre convencionais. “Ali já queríamos mexer com o samba, fazer nosso forró, experimentar”. O galope Forró do ET tem Elba Ramalho. Condução radicaliza nos graves. Se Pendura vai ao funk. Espumas ao Vento, de Accyoli Neto, não sai de onde sempre deve estar. Maria Gadú aparece em Triste, Louca ou Má, para cantarem juntas o refrão “o homem não te define, sua casa não te define, sua carne não te define, você é seu próprio lar”.

Sua presença no forró, quase um ato de coragem em um meio que procura o cult como norte, aponta para uma visão ainda estereotipada do gênero. “Existe um grande preconceito em geral. É uma música muito marginal, todos têm uma memória afetiva com as músicas mas não há um interesse maior”.

Aos 40 anos, ela diz que o álbum é também um retrato de seu momento, separada depois de dez anos, faz uma certa volta à adolescência, quando descobriu a Bahia de todos os axés. Uma volta ao relaxamento depois de um disco mais tenso com Nuno Ramos. Algo que a faz lembrar da frase que Elba Ramalho lhe disse: “O forró me energiza e eu energizo o forró”.