Centenário de João Cabral de Melo é celebrado

Pernambucano construiu uma carreira singular, tornando-se um dos principais poetas da língua portuguesa do século 20. Aniversário será celebrado com lançamento de volumes de obras inéditas e biografia

23 de janeiro de 2020

O poeta João Cabral de Melo Neto pertencia a uma família ilustre: seu irmão é o historiador Evaldo Cabral de Melo, além de ter sido primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre. E, como os demais, João Cabral construiu uma carreira singular, tornando-se um dos principais poetas da língua portuguesa do século 20, da mesma grandeza de Pessoa e Drummond.

O escritor pernambucano que não acreditava em inspiração – para ele, a obra-prima era fruto do extenuante trabalho com a palavra – será festejado ao longo deste ano e o ponto de partida é esta quinta-feira, dia 9, quando é lembrado o centenário de seu nascimento (ele morreu em 1999, aos 79 anos). Por conta disso, uma série de novas edições de sua obra completa vai preencher a temporada editorial para comemorar a efeméride.

Cabral era um estilista mesmo não admitindo – cada verso era cuidadosamente pensado, a fim de dar forma a uma estrutura consistente do poema, o que o tornava conhecido como o poeta da matéria, por seus versos secos, exatos, sem ilusões e de emoções omitidas. Estudioso da obra cabralina desde 1977, o também poeta Antonio Carlos Secchin é figura central no trabalho de reedição – no primeiro semestre, a Alfaguara vai lançar um volume com poesia completa organizada por ele, que acrescentou trabalhos inéditos, descobertos pela pesquisadora Edneia Ribeiro – um deles, A Nuvem Sobre a Batalha.

Também poemas inéditos são acrescentados – o arquivo de Cabral deixado aos cuidados da Casa de Rui Barbosa, no Rio, revela-se um verdadeiro tesouro, pois mais de 40 poesias inéditas já foram identificadas e ratificadas. Um volume de prosa também está nos planos da editora, para o segundo semestre, incluindo entrevistas e discursos que se encontravam dispersos ou sem publicação. Aqui, a organização será de Sergio Martagão Gesteira.

Estão previstas ainda uma fotobiografia, organizada por Eucanaã Ferraz, e uma nova biografia, assinada por Ivan Marques. Obras que reforçam o perfil de um poeta que construiu uma obra marcada tanto por uma tendência surrealista como por assuntos populares. Comum, na verdade, era o rigor estético, que gerou poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes, inaugurando uma nova forma de fazer poesia no Brasil.

Referência

O poeta Antonio Carlos Secchin tornou-se referência sobre a obra de João Cabral de Melo Neto. Ele explica a importância ainda ocupada por sua poesia na literatura: “Não temos “o” grande poeta da língua, mas vários, cada um grande à sua maneira. O que me parece marcar a contribuição de Cabral é ele não se inserir na chamada “linha evolutiva” da literatura, com suas ascendências e descendências bem assentadas. Nesse sentido, ele é um solitário – sem pais, mas, infelizmente, com muitos filhos adotivos, que diluíram sua notável e rigorosa lição. No campo da poesia, devemos distinguir, no que se reporta à música do verso, dois elementos: a melodia e o ritmo. A melodia se vincula à rima tradicional, às aliterações, às paronomásias, e, nesse sentido, João Cabral de fato a evitava, julgando-a entorpecente, anestésica, tudo que ele considerava que a poesia não devia ser.

Já o ritmo é incontornável, diz respeito à distribuição de tônicas e átonas no verso, e a isso Cabral foi atentíssimo, logrando resultados muito expressivos no emprego, por exemplo, de métricas alternadamente regulares e irregulares ao longo de uma estrofe. Não por acaso, era aficionado da música cigana, em que a voz às vezes parece soar apenas como um grito, mas em que a sustentação rítmica é essencial. De resto, se no Romantismo e no Simbolismo tentou-se fazer de poesia e música artes afins, no contexto cabralino, a afinidade, sem dúvida, seria com as artes plásticas, a pintura, a arquitetura – artes de se ver, não de se ouvir”, diz ele.