Brasil tem pouco acesso ao cinema

Levantamento do IBGE aponta que os cinemas estão presentes em apenas 10% dos municípios, os museus em 25,9% das cidades e os teatros em 20%. Por outro lado 97,2% dos lares brasileiros possuem TV

6 de dezembro de 2019

A cultura no Brasil ainda é um luxo para poucos. Levantamento divulgado nesta quinta-feira, 5, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que a grande maioria dos municípios do País não tem cinemas, museus ou teatros. O grande bem cultural do brasileiro segue sendo a televisão, presente em praticamente todos os lares, sem distinção de raça, gênero e classe social; agora também em versão de tela plana.

As razões são diversas, como demonstra o Sistema de Informações e Indicadores Culturais 2007-2018, que faz um cruzamento de dados de diversas pesquisas do IBGE. As verbas públicas destinadas à área perderam importância ao longo dos anos e o número de empresas privadas do setor diminuiu. Em tempos de crise econômica, a cultura também está longe de ser uma prioridade na destinação do orçamento familiar.

“A crise dos anos recentes levou a uma queda generalizada na capilaridade geográfica dos equipamentos culturais e meios de comunicação entre as medições de 2014 e 2018”, aponta a pesquisa.

Os cinemas, por exemplo, estão presentes em apenas 10% dos municípios. Os museus aparecem em 25,9% das cidades e os teatros em 20%. As livrarias tiveram uma queda acentuada desde 2001, quando podiam ser encontradas em quase metade dos municípios (42,7%), e 2018 (17,7%). Uma nota dissonante são as bibliotecas públicas. Presentes em 87% das cidades.

“Houve políticas públicas específicas durante muitos anos para aumentar a capilaridade das bibliotecas, o que explica a discrepância”, explicou o coordenador do setor de População e Indicadores Sociais do IBGE, Leonardo Athias.

A evolução tecnológica e as mudanças nas formas de consumo de cultura, claro, também influenciam essas estatísticas. Videolocadoras, lojas de disco e lan houses, que já tiveram presença significativa nos municípios, praticamente desapareceram em 2018.

O provedor de internet, por sua vez, já alcança 58% dos municípios, cobrindo praticamente 85% da população do país. O telefone celular também está bastante difundido no país. Segundo o levantamento, 78,2% das pessoas com mais de dez anos de idade têm um telefone móvel para uso pessoal.

O eletrodoméstico mais presente na casa dos brasileiros é a televisão, que está em nada menos que 97,2% dos lares. Diferentemente de qualquer outro bem de consumo, “a posse da televisão não apresenta diferenças significativas em relação à cor ou raça, grupos de idade, nível de instrução e gênero”, sendo, de longe, o aparelho mais democrático do país. A TV de tela plana, por sua vez, já está em 74% das casas.

“A TV está praticamente em todos os municípios e, com a popularização das novas tecnologias e barateamento de preços, tem ainda um potencial de crescimento”, disse Leonardo Athias, citando as plataformas de streaming.

Os gastos com cultura, como era de se esperar, aparecem em quarto lugar no orçamento das famílias, abaixo de alimentação, habitação e transporte. O gasto médio mensal é de R$282,86 e representa 7,5% do consumo total.

Esse percentual varia um pouco de acordo com as classes sociais. Entre os mais pobres, é de 5,9%; entre os mais ricos, chega a 8%. E como não poderia deixar de ser, a maior parte desse orçamento é destinado à aquisição de eletrodomésticos, telefonia, TV e internet.

Na análise de Leonardo Athias, o percentual não é tão baixo assim. “O mundo todo tem uma estrutura de gastos parecida, com prioridade para alimentação, habitação e transporte.”, disse o analista. “Mas o gasto com cultura é bem parecido com o destinado à saúde, por exemplo, então me parece um percentual relevante.”

Gastos

Os gastos públicos em cultura aumentaram de uma maneira geral entre 2011 e 2018, passando de R$ 7,1 bilhões para R$ 9,1 bilhões. No entanto, a verba cultural perdeu importância quando comparada ao total de gastos (de 0,28% para 0,21%).