A literatura de Luiz Gonzaga Lopes

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

12 de novembro de 2020

Ao remexer antigos escritos, dentre textos jornalísticos e correspondências, estas quando o gênero ainda ocorria com muito mais frequência do que hoje — afinal, eram os anos 2003/04 —, eis que deparo com pequenas cartas datilografadas de Luiz Gonzaga Lopes, um escritor nascido em Campina Grande, na Paraíba, mas radicado em Recife, mais precisamente na grande Recife.

Quem nos pusera em contato foi um amigo em comum, o Toscano, grande parceiro com quem tive o prazer de conviver nos anos em que ele integrou os quadros da Justiça do Trabalho. Toscano, que viveu por mais de oito décadas e sob uma energia ímpar, já nos deixou tempos atrás. Além das tarefas na Justiça, nutríamos a paixão pela literatura.

Sempre que um livro ou artigo jornalístico lhe chamava a atenção, logo corria ao telefone, a me procurar para longas conversas a respeito da obra ou do texto. Era um sujeito divertido, um tanto quanto obsessivo e perfeccionista, mas culto e bem informado. Por tais motivos, em meio àquele convívio no mundo dos textos, resolveu enviar alguns artigos que eu já escrevia aqui na Folha — no caso, os relativos a obras literárias —, para seu velho amigo, o escritor Luiz Gonzaga Lopes. Toscano também era nordestino.

Desde então, uma vez estabelecida a ponte, Gonzaga Lopes começou a me remeter alguns de seus livros então publicados nos círculos de sua carreira literária que já dava sinais de fôlego suficiente para progredir. Assim, ele me encaminhou, em diferentes momentos e via Toscano, quatro de suas obras: “Competição”, “Somos iguais”, “Abençoada maldição e “Página de um diário rasgado”, todos pela “Edições Edificantes”.

Além do autógrafo em cada um, no interior das páginas, vinha sempre uma pequena carta datilografada, com dizeres elegantes e a elogiar meus artigos que lhe havia enviado o Toscano. Gonzaga me tratava por “jornalista Alberto” e me solicitava, delicadamente, ao final das correspondências, que lhe emitisse, caso possível, uma pequena avaliação dos livros que me remetera.

Cumpri os desígnios. Uma vez terminada a leitura, eu lhe dirigia um email com os agradecimentos de praxe e tecendo considerações positivas sobre as obras, tudo dentro de minhas possibilidades de análise. Não sou um crítico literário. Sou apenas um amante da literatura que sente, há anos, a necessidade de tornar pública sua opinião sobre os livros que lê e na esperança de fazer da literatura uma arte mais acessível ao máximo de pessoas.

Não tenho dúvidas de que é maravilhoso o caminho que o universo literário nos propicia. Não tenho dúvidas de que necessitamos nos desenvolver sempre mais no campo da leitura e, em consequência, da expressão verbal, do pensamento, da cultura e da escrita. O Brasil precisa aumentar seus índices de leitores. Passos precisa aumentar seus índices de leitores.

Ao rever agora, anos depois, os brindes de Luiz Gonzaga, percebo novamente o bom conceito que lhe devotavam membros do meio literário, como outros escritores e intelectuais da área educativa. “Página rasgada de um diário”, a propósito, foi adotado por professores brasileiros que ministravam aulas de português em uma universidade da Philadelphia, nos Estados Unidos. A professora Leonor Oliveira, um dos membros, se disse encantada.

Em geral, toda a sua obra transita por romances, contos e poemas. No entanto, como muitos, não viveu somente da carreira de escritor. Além de ter trabalhado no Banco do Brasil, desempenhou funções como economista em empresas e atuou também na área pedagógica, ao ensinar a matéria em nível superior.

Apesar, porém, das diversas vertentes profissionais, creio que que sua devoção pela literatura foi maior. Aliás, quem se entrega mesmo ao ofício de escrever acaba realmente absorvido por sentimentos dominantes, mais ainda quando se busca trazer à luz o que se escreve. A batalha por se estabelecer nessa área tão rica e ampla da escrita demanda, sim, entrega absoluta.

Quanto ao estilo de suas criações, ressalto certas qualidades que muito prezo: a clareza, o poder de síntese, quando se diz o máximo com o mínimo possível de frases, e até a simplicidade. Como ele bem me disse, em uma de suas correspondências, “a maneira mais difícil de escrever é com simplicidade.” Tal pensamento jamais escapou de minha lembrança.

Em quaisquer dos estilos, cabe dizer que a busca por mais clareza, objetividade, simplicidade e fluência se torna fundamental para a boa transmissão do conteúdo, o que não impede, por outro lado, que se admirem obras-primas tão específicas na maneira de narrar, como aquela que talvez seja a maior de nossa literatura, “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa.

Penetrem-se, pois, as narrativas de Gonzaga Lopes e será possível perceber seus relatos claros, simples e enxutos, mas construídos de maneira a nos ofertar questões profundas de nossa essência. O fato de ser simples não lhe retira a capacidade de nos expor aos eternos dramas que nos afligem. Um talento que reside exatamente na fusão entre síntese e densidade.

São obras não só para leitores experientes, mas bastante aptas para o terreno da literatura juvenil. Noutras oportunidades, talvez eu venha a abordar, com mais detalhes, seus contos e romances. Este texto, que emerge de minhas memórias literárias, chegará até ele. Mantive contato com seu editor para saber por onde anda o homem. E continua lá, em solo pernambucano. Vale guardar este nome: Luiz Gonzaga Lopes.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.