A Flor do Caroá – Parte 2

Dia a Dia

7 de fevereiro de 2020

Os olhos dos bichos e dos sertanejos residentes em Brejo Santo já repararam as nuvens no céu. Entre quipá, coroa-de-frade, imburana e juazeiro, o mandacaru, anunciante das chuvas, mostra os frutos vermelhos dando esperança. É hora de plantar.

— O tempo mudou. Tá bonito pra chover!— Disse o neto Cícero.

Tempos passaram e hoje naquele lugar, o neto de Augusto e a mulher Raquel, administram a aconchegante pousada Patuá. A antiga prensa de madeira, fragmento da história, tem lugar de destaque no jardim da pousada Em paralelo à pequena fábrica de queijos de cabra que tem como clientes hóspedes da pousada, delicatessens e hotéis da capital.

Raquel traz no peito uma medalha, recordação dos pais biológicos. É uma mulher empreendedora, com ajuda de Augusto e Cícero, conseguiu a revitalização da cidade. Coordena o trabalho de um grupo de artesãs da região que faz acessórios femininos e utilitários utilizando a fibra de caroá.

Cícero é presidente da “Cooperativa de Apicultores de Brejo Santo.” Após as chuvas as abelhas visitam as flores do marmeleiro, responsável pela produção de mel com sabor muito apreciado e com alto valor comercial para os criadores de abelhas do nordeste, sendo considerada uma das principais fontes de néctar da caatinga.

Os agricultores estão satisfeitos comercializando os mais diversos produtos orgânicos desde frutas e verduras até caprinos e ovinos. Durante o dia, a feira da pracinha atrai gente de longe. Expostos em pequenos jiraus de bambu, se acha com fartura, laranjas da terra, chuchus, jerimum, macaxeira, pimentas de cheiro, queijos de cabra e doces variados.

Brejo Santo hoje em dia tem muita coisa para conhecer e explorar! Serras, rios, riachos encantam os turistas que vem até ali pelas compras, ou mesmo pelo passeio, em busca de diversão. Nos finais de semana sempre acontecem shows de forró com artistas da região.

No alto da colina, Augusto, Cícero e Raquel aproveitam a beleza da paisagem que a duras penas fizeram renascer. Um instante de silêncio, um frescor envolve os três num afago, espalhando no ar o perfume das flores brancas dos marmeleiros. Despontam sob a claridade do luar um bando de crianças, alegres e saudáveis, vindo ao encontro dos pais e do bisavô.

Augusto se sente realizado. Segura no galho do mulungu olha a família e diz:

—Não existe lugar mais bonito para se morrer…

E as primeiras chuvas vieram. O cinza esbranquiçado da caatinga deu lugar ao verde que avança sobre os vestígios de moradias e sonhos de vida. Os animais aproveitam a fartura. O sertão explode exuberante, cheio de vida e cores.

Sonhos e caroás resistiram. É assim que deve ser!

MARIA MINEIRA é autora do livro “Ao Pé da Serra- Contos e Causos d a Canastra”.