A Flor do Caroá Parte 2

31 de janeiro de 2020

Ajoelhou-se no chão e com as mãos mediu o ventre da mulher, indagando das contrações. Assumiu o comando como se estivesse em Recife, na sala de parto do Hospital Dom Pedro II, onde passou a vida aparando criança. Coisa comum em mais de quarenta anos de profissão. O doutor Augusto deu ordens para que trouxessem água quente.  Havia feito muitos partos. Fáceis ou complicados, perdera a conta de quantos nascimentos testemunhara com a responsabilidade de trazer para a luz, algumas milhares de crianças.

Agora, já velho e sem as mãos firmes de antigamente, num local sem o mínimo recurso; começou sentir um pavor tomando conta de todo seu ser. Só podia estar caduco. Era o que pensava enquanto corria os olhos naquele lugar e se via diante do bando de Virgulino Ferreira, esperando que fizesse um milagre. Saiu do devaneio com o gemido da mulher. Eram as contrações aumentando. A noite seria longa e o parto muito difícil.

Trouxeram um caldeirão de barro cheio de água quente, como havia pedido. Então, molhou panos e colocou compressas quentes na barriga da mulher do cangaceiro Corisco, para que o ventre se dilatasse, facilitando assim o trabalho de parto.

Reinava um silencio sepulcral, quebrado apenas pelas queixas da parturiente. Um pequeno calango correu sobre as pedras e gravetos procurando a escuridão. Lampião, Maria Bonita e Corisco, olhavam agoniados o sofrimento de Dadá.

Horas se passaram… Contrações cada vez menos espaçadas. A mãe já quase sem forças sussurrava uma oração. Der repente um dos cangaceiros entra assustado avisando da volante que fora divisada vindo naquela direção. Precisavam escapar daquele lugar o mais rápido possível. Ciente do perigo, em meio a uma forte contração, a mulher fez um último esforço e nesse momento o velho médico murmurou:

 —Está nascendo!

Ajoelhado no chão, segurando com mãos hábeis a cabecinha, Augusto trouxe para o mundo uma criança. Mediu com os dedos o cordão umbilical, amarrou e cortou com o próprio canivete. Com delicado tapa no traseiro fez a criança mostrar-se viva, ao desatar o choro.

—É uma bela menina, dona Dadá!
Nessa hora, Augusto reparou à sua volta. Haviam apagado o fogo, ajuntado as tralhas. Estavam prontos para partir. Num gesto de gratidão, o cangaceiro Corisco tocou-lhe o ombro sem dizer palavra arrancou do chapéu e colocou em sua mão uma moeda de ouro e uma libra esterlina que serviam de adorno. Enquanto sua mulher com a criança ao peito chorava copiosamente por se ver forçada a afastar-se da filha. Colocou no pescoço da menina uma correntinha com a medalha de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus e sussurrou:

— Sô Dotô, jura por Nossinhô Jesus Cristo que vai cuidá da minha bichinha. Leva ela pra bem longe… Na nossa companhia ela num vai vivê…
Aturdido, ainda sem se dar conta de tudo que havia passado naquela noite, Augusto se viu sozinho num esconderijo no meio da Caatinga, segurando nos braços uma recém-nascida. Lá fora, o tropel seria dos cavalos do bando de Lampião se afastando ou da volante se aproximando?
Augusto acorda quando Raquel, sua neta adotiva, toca seu ombro num um gesto carinhoso.  Antes de se levantar, aperta no bolso uma moeda de ouro e uma libra esterlina que sempre traz consigo e percebe que o sertão não é ingrato aos que nele habitam. (Continua na edição da próxima sexta)