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Por que mentira tem a perna curta?

9 de Maio de 2020

Em tempo de falácias ao invés de resignação, soberba ao invés de união, liderança do exemplo ao invés de ignorância, segue novamente, a crônica que explica porque mentira tem a perna curta. Pare o seu pensamento por um instante e reflita: quantas mentiras você ouviu hoje? Quantas verdades? Difícil, não é? Realmente, é! O problema é que, muitas vezes, não sabemos qual é a verdade que está na mentira ou qual é a mentira contida na verdade. São ângulos dos diversos olhares e intenções que se mostram ou não. Você mentiu hoje? Por quê? A culpa é de quem? Sua ou do outro?

Talvez, essas perguntas sejam necessárias para nos fortalecer como pessoas em busca de melhoria contínua. Por isso, iremos falar das origens de algumas palavras relacionadas com a mentira para provocar a reflexão. Comecemos por uma parábola sem autoria conhecida. Dizem que ela é da tradição judaica. O título é “A parábola da verdade e a mentira”.

Ei-la: “Certa vez, a mentira e a verdade se encontraram. A mentira disse para a verdade: – Bom dia, verdade! A verdade foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva e havia pássaros cantando. Ao ver que realmente tratava-se de um bom dia, respondeu à mentira: – Bom dia, mentira! A mentira prosseguiu: – Está calor hoje! E a verdade, percebendo que a mentira estava certa pela segunda vez, relaxou. A mentira então convidou a verdade para um banho no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse: – Venha, verdade, a água está uma delícia! Assim que a verdade, sem suspeitar, tirou suas vestes e mergulhou, a mentira saiu da água, vestiu-se com as roupas da verdade e foi-se dali. A verdade, por sua vez, recusou-se a vestir-se com as vestes da mentira. E por não ter do que se envergonhar, saiu nua a caminhar pelas ruas e vilas. E desde então, é por este evento que, aos olhos de muita gente, é mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade do que a verdade nua e crua”.

Quanta reflexão poderíamos fazer dessa parábola!!! Concorda? Vamos nos ater aqui às etimologias das palavras, isto é, das origens delas. “Mentira”, vem do latim ‘mentior’ que significa “faltar à palavra dada, fingir, imitar, dizer falsamente”. Há também o termo latino ‘menda’ que quer dizer “defeito, falha, descuido no escrever”. Essas origens vem do Indo-Europeu ‘mend’ cujo sentido é “defeito físico, falha, aleijão”. Assim, a mentira é um fato aleijado, que não possui pernas para se sustentar. Essa origem nos faz construir o sentido do ditado popular: ‘a mentira tem a perna curta’.

A palavra ‘remendar’ é voltar à falha que se cometeu e dar reparo a ela. Se você quiser chamar alguém de mentiroso de uma maneira oculta e/ou culta, poderá chama-lo(a) de ‘mendaz’. Já pensou que chique você chamar uma pessoa de ‘mendaz’? (rs). Outra palavra que ameniza o termo ‘mentira’ é ‘inverdade’. Verus é o termo latino que significa “real, autêntico, sincero”. Ao acrescentarmos o prefixo negativo ‘in’, torna-se no conceito daquilo “que não é verdade”, ou seja, a mentira. Aqui, tratamos das origens, do étimos das palavras. Como sabemos, somos a linguagem que usamos, seja verbal (escrita ou falada), seja corporal, basta uma observação mais atenta para percebermos as mentiras, as inverdades, os mendazes.

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa. Autor do livro: A Linguagem da Felicidade.