Geral

O que você precisa saber sobre o coronavírus – Parte 6

Especialistas respondem questões que ajudam enfrentar a pandemia

11 de Maio de 2020

Foto: Reprodução (Site EBC)

78 – Estava me preparando para engravidar e até tomando ácido fólico. É melhor postergar o plano da gravidez?

– O ideal é postergar o plano neste momento, porque ainda há poucos dados sobre a transmissão da doença da mãe para o feto. “Aconselho pelo menos a esperar o fim do pico da pandemia, aguardar pelo menos três meses. A atitude é importante e necessária por uma medida de prevenção. Ainda não há estudos conclusivos sobre o efeito da doença nas fases da gravidez, mas a gestante não pode descartar possíveis riscos ao feto e a si mesma”, afirma Isaac Fermann, ginecologista obstetra dos hospitais da Pro Matre Paulista, Santa Joana e Santa Catarina.

O Ministério da Saúde incluiu, no início de abril, gestantes e mulheres que deram à luz há pouco tempo no grupo de risco para o novo coronavírus. Antes, vinham sendo consideradas neste grupo apenas gestantes de alto risco. A inclusão levou em consideração o efeito de outros coronavírus e de vírus gripais nessa população.

Foto: Divulgação (Site EBC)

79 – Não estava planejado, mas fiquei grávida. Procuro médico ou hospital para fazer meu pré-natal? Posso adiar a ida ao médico?

– A gestante não pode em hipótese nenhuma adiar a ida ao médico, na opinião do ginecologista obstetra Isaac Fermann. “O acompanhamento é primordial em todas as fases da gestação. Muitos obstetras estão atendendo com horários personalizados para evitar aglomerações”, diz Fermann. “É importante que se vá a um consultório e não a hospitais. É aconselhável, ainda, que a gestante use máscara e álcool em gel.”

Durante a consulta, o médico faz o controle de peso e da pressão arterial, além de solicitar exames de sangue e ultrassom para acompanhar o desenvolvimento do feto, que deverão ser realizados em laboratórios. “Se gestante tiver diabetes, hipertensão ou cardiopatia, ela é considerada como grupo de risco. Mais um motivo para não deixar de fazer o pré-natal”, diz Fermann. Caso apresente algum mal-estar, a gestante deve entrar em contato com o obstetra antes de ir ao hospital.

80 – Devo evitar todos os hospitais, até aqueles que não estão recebendo casos de covid-19?

– A indicação dos órgãos de saúde é que as pessoas evitem sair de casa neste momento. Para reduzir aglomerações em hospitais e centros de saúde durante a pandemia, o Conselho Federal de Medicina (CFM) enviou no dia 19 de março ofício ao Ministério da Saúde informando que liberava, em caráter temporário, atendimentos virtuais para triagem e monitoramento de pacientes em isolamento.

Questionado sobre como o paciente e o médico de teleatendimento devem proceder, por enquanto, a orientação Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) é de que “pacientes encontrem junto a seus médicos a melhor forma para retirarem suas receitas, podendo ser via portador ou um parente. O importante é que a receita esteja com os dados legíveis tanto do paciente como também do médico e da medicação prescrita, além da data de emissão da receita”.

81 – Sofri uma torção em casa. É seguro procurar o hospital?

– Os hospitais asseguram atendimento de pessoas que não estão com o novo coronavírus, mas precisam de atendimento emergencial. “Se for urgente, procure atendimento hospital. Torceu algum membro, não sabe a gravidade, deve procurar auxílio médico. Se for caso simples, pode fazer consulta a distância”, diz Carlos Magno Fortaleza, infectologista do Departamento de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu e membro do Comitê do Estado de São Paulo de combate ao novo coronavírus. “A pessoa que realmente tem de ir ao hospital não precisa ficar com medo. Medidas preventivas estão sendo adotadas e muitos hospitais separam a entrada de pacientes com o novo coronavírus.” Vale ir de máscara ao hospital e usar álcool em gel para higienizar as mãos.

82 – Como consigo receita para meu remédio de uso contínuo?

– Para não sair de casa, uma alternativa é a pessoa entrar em contato com o médico e explicar a situação. “O paciente atualmente está solicitando a receita ao seu médico, que tem enviado pelo correio ou por motoboy, ou pedido a retirada do documento por uma pessoa próxima.

Essa tem sido uma prática bastante comum”, diz Carlos André Uehara, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Desde que a quarentena começou, há relatos também de pessoas que não estão conseguindo comprar remédios controlados. No fim de março, a Anvisa alterou temporariamente as regras para prescrição e venda de medicamentos controlados.

Dependendo do medicamento, será permitido comprar o suficiente para tratamento entre três e seis meses. Também está autorizada a entrega de medicamento controlado em domicílio. A pessoa precisa ligar para a farmácia e verificar se existe a possibilidade de fazer o cadastro e solicitar a retirada da receita controlada.

83 – Faço tratamento de HIV. Como pego meus remédios?

– A OMS lançou no fim de março uma cartilha com orientações para as pessoas com HIV e recomendou que os países forneçam os remédios por três meses aos pacientes – e não para apenas um mês. No Brasil, o Ministério da Saúde informa que “as coordenações estaduais deverão identificar as Unidades Dispensadoras de Medicamentos (UDM) que podem receber um quantitativo maior de medicamentos para ampliar a dispensação para até três meses e realizar o envio complementar dos ARV (antirretrovirais)”.

84 – Por causa do isolamento, estou em outra cidade e não naquela onde estou cadastrado para pegar meu medicamento de HIV. Como faço?

– Caso o paciente em tratamento para HIV esteja fora de seu local de domicílio, deve preencher um formulário no site da Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (Siclom) do Ministério da Saúde. “Ele deve também juntar uma receita médica em duas vias, dentro do prazo de validade. Todos os pacientes com tratamento para o HIV podem solicitar a transferência do local onde vão retirar os medicamentos”, afirma José Luiz Souza de Moraes, procurador e professor de Direito Constitucional e Internacional.

85 – Tive diagnóstico de infecção por covid-19 e me curei. Posso doar sangue?

– Por ainda existirem diversas dúvidas sobre o novo coronavírus, a doação de sangue neste caso não é recomendável, como explica o diretor da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH),  Ângelo Maiolino. “Provavelmente não há transmissão assim, mas é algo que ainda não podemos
afirmar”, diz.

86 – É preciso tomar cuidados especiais em casa quando a pessoa volta de uma internação por covid-19?

– Sim. O processo de recuperação dos pacientes se dá de duas formas, segundo o infectologista Keny Colares, do Hospital São José de Doenças Infecciosas (HSJ), do Governo do Estado do Ceará. A primeira, a cura clínica, ocorre quando não há mais sintomas da doença. Já a cura microbiológica significa que organismo eliminou totalmente o vírus, algo que pode demorar mais para acontecer. “A alta hospitalar pode significar apenas que ele não precisa mais de internação”, explica o infectologista. “Então, ele vai passar a ter o isolamento domiciliar, como ocorre nos casos leves, até eliminar o vírus completamente.”

O paciente que ainda estiver em observação deve usar máscara o tempo todo, separar itens para uso pessoal, higienizar com frequência os móveis da casa e manter janelas abertas para ventilação. Ainda segundo o Ministério da Saúde, caso o paciente não more sozinho, os demais moradores devem dormir em outro cômodo e sempre manter a distância mínima de 1 metro para o paciente. Caso outro familiar da casa apresente os sintomas leves, ele deve reiniciar o isolamento de 14 dias. Se os sintomas forem graves, como dificuldade para respirar, ele deve procurar orientação médica.

87 – Qual a diferença entre cloroquina e hidroxicloroquina? Como estão os estudos com essas substâncias?

– Usadas em testes ao redor do mundo contra a covid-19, a cloroquina e a hidroxicloroquina são remédios com formulações diferentes mas com a mesma substância, a cloroquina. Até a pandemia do novo coronavírus, eram medicamentos conhecidos no tratamento de artrite, lúpus eritematoso, doenças fotossensíveis e malária. Pesquisas apontam efeitos colaterais desses medicamentos, como arritmia, que podem causar desmaios e até parada cardíaca. “A cloroquina é o antimalárico original ainda usado no tratamento de malária. A hidroxicloroquina é correlata, considerada mais segura, com menos efeitos colaterais, ainda mais usada na reumatologia e no tratamento de algumas doenças reumáticas”, diz Lauro Ferreira Pinto Neto, infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor da Santa Casa de Vitória.

O especialista alerta que o uso de ambos os medicamentos provoca o risco de alterar o chamado intervalo QT (determinado intervalo que aparece no eletrocardiograma) e pode causar arritmia, principalmente em pessoas mais velhas. “Se usado com azitromicina, o risco é aditivo. O monitoramento deve ser ainda mais cuidadoso.”

No maior estudo já feito sobre o medicamento, em análise do governo dos Estados Unidos, o uso não mostrou eficácia contra a covid-19 e esteve associado a mais mortes. No Brasil, foi liberado pelo Ministério da Saúde para tratamento de pacientes em estado grave – e o uso em pessoas com sintomas leves está em análise.