Meio Ambiente

Temporada de fogo ainda pior

30 de abril de 2020

O aumento constante nos alertas de desmatamento que vem sendo observado desde agosto do ano passado, seguindo a tendência que tinha começado em maio de 2019, indica que a próxima temporada de fogo na Amazônia deve vir ainda pior que a do ano passado, especialmente em terras públicas. Isso tudo em meio à pandemia do novo coronavírus, que já afeta cidades como Manaus e Belém, podendo piorar os problemas respiratórios da população.

Análise

É o que estima uma análise feita por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), publicada nesta quarta-feira, sobre os alertas do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O monitoramento em tempo real do Inpe revelou alta de 51% no corte raso da floresta no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado – foram cortados 796 km² entre 1º de janeiro e 31 de março neste ano, ante 526 km² no primeiro trimestre de 2019.

Sob guarda

O Ipam observou que cerca de metade dessa destruição ocorreu em terras sob a guarda da União e dos Estados. Florestas públicas ainda não destinadas, que são alvo de grilagem e respondem por 15% da Amazônia, registraram 33% da derrubada no período. Nos três primeiros de 2019, essa categoria fundiária teve 22% do corte, aponta nota técnica publicada pelo instituto. Com base no que eles viram ocorrer no ano passado, a expectativa dos pesquisadores é que quando a estação seca chegar à Amazônia, essas árvores derrubadas vão novamente virar combustível para as queimadas.

Forças Armadas

Análise anterior feita pelo Ipam, ainda no ano passado, tinha revelado que boa parte do que queimou em agosto de 2019, e que chamou a atenção do mundo inteiro, fazendo o governo enviar as Forças Armadas para a floresta, era material que tinha sido desmatado nos meses anteriores. O governo federal, no início da crise, disse algumas vezes que o fogo se devia somente à temporada seca, mas os pesquisadores compararam os índices de chuva com outros anos e viram que a seca do ano passado estava dentro do padrão, o que não explicaria o aumento nas queimadas. Já o desmatamento, sim, estava acima do normal: o corte da floresta nos primeiros oito meses de 2019 tinha sido 92% superior à taxa do mesmo período de 2018, segundo dados do Deter.

Temporada

Na nota técnica divulgada na semana passada, o Ipam destaca alguns outros dados da temporada passada de fogo: o número de focos de calor registrados na Amazônia em 2019 foi 81% mais alto do que a média observada entre 2011 e 2018. A maior variação aconteceu nas florestas públicas não-destinadas: 37% a mais, o que indica a ação de grileiros.