Lingua Portuguesa

Vende-se ou vendem-se casas

21 de novembro de 2020

É muito comum termos a dúvida sobre como se faz a concordância que sugere o título deste artigo. Em muitos lugares, muitos mesmo, eu diria que em 90% dos anúncios desse tipo utilizam a fórmula “Vende-se casas”. Como eu não sou fiscal da língua portuguesa, pelo contrário, sou estudioso dela, pesquisador, o que interessa para mim, é descobrir por que alguns usos linguísticos são mais frequentes que outros. Descobrir esses pormenores nos ajuda a termos uma relação mais íntima com a língua. Isso nos torna mais eficazes em nossa comunicação, seja na fala, na escrita, na leitura ou na escuta.

 

O que a gramática diz?

A gramática tradicional prescreve que o verbo deve sempre estabelecer concordância com o sujeito. Neste caso, ela dirá que o correto é escrever/dizer “Vendem-se casas” porque se tem a ideia de que “Casas são vendidas”. Por um lado, a gramática diz que em “Vendem-se” temos um verbo na voz passiva que possui o “se” como pronome apassivador. Por outro, há um sujeito simples e determinado em “casas”. Portanto, deveríamos escrever: “Vendem- se casas”; “Vendem-se ovos”; “Alugam-se apartamentos”; “Digitam-se trabalhos”; “Assentam-se portais”; “Imprimem-se projetos” etc.

Precisa-se ou precisam-se

“Precisa-se de pedreiros” ou “Precisam- se de pedreiros”? Quando há a utilização da preposição “de” pela necessidade do objeto indireto, o correto é que o verbo seja utilizado sempre na 3ª pessoa do singular. Isso independe se o objeto indireto estiver no singular ou no plural. Dessa forma, esses usos devem ser escritos assim: “Precisa-se de pedreiro (ou pedreiros)”; “Precisa-se de funcionário (ou funcionários)”.

Desacordos

Mas, por que há tantos desacordos na gramática? Marcos Bagno, professor doutor em Linguística, da Universidade de Brasília, fez um levantamento sobre esse tipo de uso e explicou que as pessoas inconscientemente, dentro de uma lógica do uso, percebem que o pronome apassivador “se”, funciona como se fosse o sujeito do enunciado, ou seja, quando usamos “Vende-se casas” ou “Aluga-se carros”, é como se pensássemos dessa maneira: “Sou eu quem está vendendo as casas” ou “Sou eu quem está alugando esses carros”. O fato de pensar desse modo, faz com que utilizemos o “se” como um sujeito, pois há a intenção de que é aquela empresa que está alugando ou é aquela pessoa que está vendendo.

Tenho percebido que algumas imobiliárias e revendedoras de carros estão adotando outras formas de uso para evitarem o erro gramatical, eis alguns exemplos: “Factor imóveis aluga”; “Temos móveis para alugar”; “Vendemos carros em consignação” etc. Gramaticalmente está correto porque o sujeito concorda com o verbo.

 

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA – Professor da UEMG. Mestre e doutorando em Língua Portuguesa (PUC/SP)