Lingua Portuguesa

Para não mitificar a desmistificação

5 de junho de 2021

P – Na frase: “Moradia própria. Desmistificar o conceito de que somente a casa própria é digna de apoio da lei”. Gostaria de saber se neste caso o mais adequado não seria o uso de desmitificar ao invés de desmistificar. Thais Guedes, Florianópolis/SC

R – Mitificar ou desmitificar tem a ver com mito. Mistificar ou seu contrário, desmistificar, tem a ver com engano, logro, ilusão, engodo, falsidade, enganação. No caso apresentado pela leitora, portanto, está correto dizer “desmistificar o conceito”, pois se trata de desmascarar esse engano (na visão do autor) ou tirar as pessoas da ilusão de que somente a casa própria é digna de apoio da lei.

Vejamos esses termos em mais situações de uso:
MITIFICAR significa “tornar mito”. Mitificação = transformação em mito.

A ideologia fascista mitifica não só as formas históricas de integração racial, como procura tornar vivos os antagonismos sociais, o mecanismo da concorrência capitalista.

Gabeira foi sempre mitificado pela mídia.
observou ali uma inclinação para a demonização e mitificação do judeu.

MISTIFICAR quer dizer “abusar de credulidade de alguém; iludir, ludibriar; falsear”, ou até mesmo “fantasiar”. Mistificação = logro, burla, engano.

Apelam a qualquer recurso, mistificando a opinião pública.
Mistifica quem fala em Brasil grande.

O autor aponta a mistificação do capitalismo: doença mundial, conspiração mundial, ruína mundial.
DESMITIFICAR significa destituir algo do seu aspecto mítico [de mito], irreal, fantástico, lendário ou atrativo, tornando-o banal, comum, trivial.

Os médicos têm desmitificado a impotência como uma questão puramente emocional.
Uma passada pelos bastidores pode desmitificar a mais bela das mulheres.

DESMISTIFICAR significa desmascarar, destituir do caráter místico, misterioso, ilusório, falso.

Para o exercício da democracia, a desmistificação dos pretensos grandes homens deve ser considerada um passo à frente.
Temos a possibilidade de desmistificar ideias antigas, deuses de barro, santos que não são santos.

 

MARIA TEREZA DE QUEIROZ PIACENTINI é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros “Só Vírgula”, “Só Palavras Compostas” e “Língua Brasil – Crase, Pronomes & Curiosidades” – www.linguabrasil.com.br