Lingua Portuguesa

Origem das palavras luto e tragédia

POR PROF. ANDERSON JACOB ROCHA

17 de abril de 2021

Desde o início de 2020, temos vivido dias incertos, muitos momentos de tristeza e isso tudo tem nos trazido o sentimento de luto pelo embalo daquilo que temos chamado de tragédia. Vou utilizar a palavra tragédia porque simboliza tudo: a aparição do vírus, a quantidade exorbitante de mortes, o negacionismo desse problema, a ignorância proveniente do anti-intelectualismo, a incompetência de gestão política, a desumanidade etc, ou seja, uma verdadeira tragédia. Por isso, vamos apresentar quais são as origens dessas palavras que invadiram os nossos dias.

Por um lado, temos a palavra “luto” que é oriunda do latim “luctus,us” que significa dor, mágoa, lástima, pesar, aflição”. Por outro, “tragédia” vem do grego “tragoidia” cujo conceito é “peça ou poema com final infeliz”. Segundo o site “Origem das Palavras”, “aparentemente deriva de tragos, “bode”, mais oidea, “canção”. E isso viria do drama satírico, onde os atores se vestiam de sátiros, com suas pernas cabeludas e chifres de bode”. Em termos etimológicos, a origem da palavra “luto” nada tem a ver com a palavra “perda”, no entanto, em termos de analogias e significações contextuais, em português, nós utilizamos uma pela outra.

Já a palavra “tragédia”, termo que utilizei para me referir a todos esses episódios tristes e lamentáveis da pandemia, é utilizada por nós em situações reais que nos causam tristeza. Dessa forma, como vimos acima, essa significação que demos a ela não retrata fielmente o seu conceito inicial. O drama vivido por todos nós, faz com que percebamos que a vida é uma cena onde ora atuamos como atores, ora como plateia.

O curioso é que a palavra “drama” vem de “peça, ação, feito” (especialmente relativo a algum grande feito, fosse positivo ou negativo), de dran, “fazer, realizar, representar”. Sabemos muito bem, fora do contexto etimológico das palavras, que os dramas vividos não são representações. Pelo contrário, a realidade é dolorosa demais.

Percebeu que utilizamos os termos “cena” e “plateia”? O que nos leva a pensar que parece que vivemos em um grande teatro onde as peças ou encenações vão e vem, ou seja, as tragédias ocorrem com os seus finais tristes e choramos na plateia (que “deriva do Grego platea, “largo e plano”. Inicialmente designava o lugar onde ficavam os músicos e se estendeu depois, em prédios diferentes dos teatros gregos, à parte onde tomam assento os espectadores.”), mas logo esquecemos os atos como se estivéssemos prontos para novas temporadas, seja para a tragédia, seja para a comédia.

Interessante observar que a palavra “comédia” não tem ligação direta com o significado que usamos hoje, pois por um tempo, era usada para “designar ‘poema narrativo’, o que é a razão de o livro “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, ter esse nome”. Se você já o leu, sabe muito bem que não há nada de humor nele.
É a vida que se mistura à arte onde há os donos dos circos e dos teatros, os atores e, claro, os palhaços. Muita tristeza!

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa. Autor do livro: A Linguagem da Felicidade