Lingua Portuguesa

O entrelaçamento de ideias

POR PROF. ANDERSON JACOB ROCHA

15 de Maio de 2021

No contexto pandêmico, Nesta coluna, já tratei da etimologia da palavra “texto” que vem de “textus, us”, da língua latina e significa tecido. Há uma lógica nisso porque um tecido é feito por meio do entrelaçamento de fios que vão se juntando. Você se lembra de uma colcha de retalhos? Então, ela é construída a partir de várias peças menores de pano. Em princípio, a colcha feita com retalhos pode até causar uma boa impressão, mas as variedades de cores e tamanhos não fazem dela uma perfeita harmonia. Da mesma maneira, um texto não pode ser apenas um amontoado de palavras, mesmo que elas estejam bem organizadas em parágrafos e com correção gramatical.

Um texto é proveniente da leitura de outros textos. Tudo o que sabemos e expomos por meio da fala e da escrita, é porque aprendemos nos variados tipos de leituras que fazemos e ouvindo outras pessoas. O nome disso é intertextualidade, ou seja, toda vez que se cria um texto tendo como base outro texto pré-existente, dizemos que há, grosso modo, muitos textos dentro de outro (s). No texto do hino nacional brasileiro há esta parte: “Nossos bosques têm mais vida”. “Nossa vida” no teu seio “mais amores”. Perceba que, geralmente, nas letras do hino, colocam-se aspas nessa parte porque ela advém do poema “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias. O poeta Joaquim Osório Duque Estrada retirou aquela parte do poema de Gonçalves Dias para compor a letra do hino nacional brasileiro. Eis um exemplo de intertextualidade explícita!!! É um texto que já existia e foi aproveitado em outro texto de forma direta, explicitamente. É por isso que precisa vir entre aspas!

Agora, leia isto: “Um cavalo, quase morto de fome e de sede, caminhava em busca de água e de comida. De repente, deparou com um campo de feno, ao lado do qual corria um regato de águas cristalinas. O cavalo, não sabendo se primeiro bebia da água ou comia o feno, morreu de fome e de sede.” Beleza!!! Preste atenção no próximo fragmento: “Há pessoas tão indecisas que são incapazes de realizar qualquer escolha e acabam perdendo muitas oportunidades na vida.”

Na comparação desses dois pequenos textos, podemos perceber que eles tratam do mesmo assunto, mas utilizam construções de textos de forma diferente. Este é um exemplo de intertextualidade implícita, isto é, o conteúdo do primeiro texto está implícito no outro. Utilizamos a intertextualidade em todos os momentos e é por isso que não podemos dizer que existem conceitos ou dogmas totalmente originais, pois a construção de uma ideia só é possível por meio de outras ideias. O ineditismo é relativo! Isso nos mostra que somos seres que precisam viver em comunidade, em ajuda mútua!!!

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA – Professor da Uemg. Mestre e doutorando em Língua Portuguesa (PUC/SP)