Lingua Portuguesa

Nem tudo é bom…

POR PROF. ANDERSON JACOB ROCHA

13 de março de 2021

Pergunta: Qual a construção certa do período e por quê: O limite é 50 arrobas ou O limite são 50 arrobas. R. P. P., Rio de Janeiro/RJ

Pergunta: Gostaria de saber qual é a conjugação certa do verbo “ser” quando o sujeito está no singular e o predicado é um plural. Ex.: O motivo do problema é/são as falhas no processo. O inferno é/são os outros. Luis Cláudio Rezende, Rio de Janeiro/RJ

Resposta: Como regra número um da concordância verbal, temos que o verbo concorda com o sujeito. Por exemplo: Ela colheu uma flor. As flores murcharam depressa. Todos já saíram.

Há, porém, uma situação bastante comum de verbo que não se conforma ao sujeito, mas sim ao predicativo. Isso só ocorre com o verbo SER e quando:

1. o predicativo (o que vem depois do verbo ser) é formado por um SUBSTANTIVO no plural;

2. o sujeito é nocional, ou seja, é constituído por nome de coisa ou por um dos pronomes TUDO, ISTO, ISSO, AQUILO e O (= aquilo) ao introduzir a oração “o que” [o que há, o que houve, o que falta…, p. ex.].

Pode-se observar essa diferença de uso do verbo nas frases do título:

Nem tudo [sujeito no singular]

é [verbo no singular]

bom [o predicativo é um adjetivo].

Nem tudo [sujeito no singular]

são [verbo no plural]

flores [o predicativo é um substantivo plural].

Vejamos vários exemplos de frase em que o sujeito (assinalado em itálico) está no singular mas o verbo vai para o plural, fazendo a concordância com um predicativo (marcado em negrito) constituído não de adjetivo mas de um substantivo ou pronome equivalente:

A prioridade agora são os programas sociais.

O limite são 500 arrobas.

Nos relatórios consulares o tema mais focalizado são as escolas italianas.

O inferno são os outros. [equivalente a “outras pessoas”]

O público serão os alunos da terceira série.

A paixão de Sílvia sempre foram os felinos.

O problema foram os feriados, queixaram-se os comerciantes.

O resultado disso tudo são ocorrências inusitadas como a instalação de um posto de aduana integrado em Salto del Guayrá.

Outro aspecto supervalorizado, que não tem tanta importância, são os estágios.

Tudo são alegrias.

Isto são problemas passageiros, podes crer.

O que há são dificuldades a serem superadas pouco a pouco.

O que houve foram brigas e discussões intermináveis.

O que não falta são dólares.

No controle escolar realizado pelos inspetores, o que mais interessava eram as zonas de colonização estrangeira, e a tônica do discurso era o culto à nação.

Na linguagem literária pode-se encontrar o verbo no singular: “Tudo é flores no presente”, escreveu Gonçalves Dias. Ou Lindolf Bell: “O lugar do poema é todos os meios de comunicação. O lugar do poeta é todos os lugares.” Mas na linguagem corrente, em tais casos, a recomendação é o verbo ser no plural, conforme explicamos.

* MARIA TEREZA DE QUEIROZ PIACENTINI Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ‘Só Vírgula’, ‘Só Palavras Compostas’ e ‘Língua Brasil – Crase, pronomes & curiosidades’ – www.linguabrasil.com.br (Escreve excepcionalmente hoje no lugar do professor Anderson Jacob)