Lingua Portuguesa Destaques

LÍNGUA PORTUGUESA

20 de novembro de 2021

Infinitivo flexionado – Voz passiva (1)

P – Professora, qual é o certo: medidas a serem/ser tomadas? S. B., Porto Alegre/RS
P – Quero saber por que o verbo ser não acompanha o plural do restante da frase: …casos desse tipo levam até vinte anos para ser decididos. Leonardo Santos Moreira, Rio de Janeiro/RJ
R – O uso do infinitivo flexionado é chamado de “idiotismo” por ser, entre as línguas neolatinas, peculiar e exclusivo do português. Se, por um lado, a flexão [-es, -mos, -em] serve para esclarecer a pessoa do sujeito sem ser necessário mencionar explicitamente os pronomes tu, nós, eles (por exemplo, pode-se dizer “convém irmos juntos” em vez de “convém nós irmos juntos”), tornando a redação mais bonita e interessante, por outro lado deixa os falantes em dúvida sobre o que é melhor ou correto.
Selecionei então algumas das muitas cartas em que leitores do Língua Brasil manifestam suas incertezas sobre o emprego da flexão do infinitivo na voz passiva. A flexão simples foi tratada na coluna Não Tropece na Língua 49, ocasião em que mostrei as duas possibilidades de uso, concluindo que só existe uma obrigatoriedade de flexão: quando o sujeito [substantivo ou pronome] do infinitivo se encontra claramente ao lado do verbo, depois da preposição, isto é, na seguinte ordem: preposição – sujeito – infinitivo. Relembrando:
Falou para as crianças saírem da sala. – Discutiram uma forma de todos se protegerem. – Para os problemas serem resolvidos, precisamos de mais ação. – Dê um jeito de seus filhos estudarem juntos, falou. – Ser autônomo é mais incômodo, a ponto de muitos de nós termos medo de ser livres.
A dúvida da maioria dos consulentes ocorre quando a frase apresenta uma ordem diferente: sujeito – preposição – infinitivo. Já neste caso é facultativa a flexão, embora haja algumas recomendações e preferências, sobretudo em razão da eufonia, do que soa ou fica melhor no contexto. Mas quero reiterar que existem alternativas: não se discute se é certo ou errado. Por exemplo, não se pode afirmar que há erro em “É preciso pensarmos no que fizemos ou deixamos de fazer para melhorarmos a vida do nosso irmão” [frase de um senador em 1999]. Todavia, o enunciado fica muito melhor assim: É preciso pensar ou Precisamos pensar no que fizemos ou deixamos de fazer para melhorar a vida do nosso irmão.
Bem, a novidade de hoje e da próxima semana em relação à colunaé que vamos falar da flexão do infinitivo na voz passiva, o que implica a presença do verbo ser no infinitivo + um particípio. O esquema é este: sujeito – preposição – ser – particípio.
Primeiro caso: A flexão do infinitivo passivo é preferível e preferida quando o substantivo ou o pronome que é sujeito do infinitivo vier logo na frente da preposição:
Relacione as medidas a serem tomadas, por favor. – O editor guardou mil histórias para serem contadas. – As casas a serem visitadas foram apontadas pelo delegado. – Condenamos os escritores a não serem lidos. – É importante zelar pela qualidade das obras a serem publicadas. – Encaminho-lhe os seguintes documentos para serem analisados.

MARIA TEREZA DE QUEIROZ PIACENTINI – Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros “Só Vírgula”, “Só Palavras Compostas” e “Língua Brasil – Crase, Pronomes & Curiosidades”