Lingua Portuguesa

Comunicação e discurso

POR PROF. ANDERSON JACOB ROCHA

10 de abril de 2021

Que relação há no caso da morte do menino Henry Borel com comunicação e discurso? Já não bastasse a tristeza que temos assistido todos os dias, com registro de mais de 4 mil mortes por dia, por causa do Covid 19, ainda temos que ver outra tragédia sem tamanho. Refiro-me à morte do menino Henry Borel, de 4 anos, Rio de Janeiro, cujo suspeito principal é um indivíduo considerado acima de qualquer suspeita: vereador que está no quinto mandato, bem localizado socialmente, branco etc. A tristeza continua porque, pelo que parece, pelas investigações iniciais, a mãe do menino já sabia de alguns atos de violência advindas do companheiro contra o filho. Aguardemos.

Bem, por que trago esse assunto em uma coluna de Língua Portuguesa? Primeiro, porque, como já disse aqui, várias vezes, a língua e a linguagem são bases de nossa constituição identitária. Simples assim. Os nossos discursos revelam quem somos. A linguagem que uso desvela o meu ser. Portanto, não se engane. Preste a sua atenção nas nuances de comunicação. O menino Henry, por exemplo, deu sinais de que havia algo errado. Segundo, porque vou reavivar um texto que foi publicado no meu livro “A Linguagem da Felicidade”, com algumas mudanças, para mostrar que precisamos ter mais consciência dos atos linguísticos e dos discursos nossos e das pessoas que estão ao nosso redor.

Dito isso, precisamos estudar as condições nas quais um enunciado foi proferido e quem o fez. O discurso, portanto, provem de uma enunciação, que é realizada por um dado sujeito que se situa em um determinado lugar e tempo. Certa vez, logo após ouvir, de uma pessoa profissional da educação, que bater na criança era bom para educar, decidi fazer uma pesquisa. Participaram dela, 82 pessoas de gêneros, classes sociais e faixa etária diferentes, sobre violência doméstica. 98,2% responderam que são contra a violência doméstica. 59,8% afirmaram que a mulher é a maior vítima e 40,2%, a criança.

Na pergunta: “Na família, ‘a chinelada’ é algo necessário para impor limites na criança?”, tivemos o seguinte resultado: 17,1% disseram que sim, 39%, talvez e 43,9%, não; Dos entrevistados, 85% possuem conhecimento de famílias que batem nos filhos por acreditarem que isso educa; E 34,1% possuem conhecimento de instituições (igrejas, escolas etc) que orientam as famílias a corrigir os filhos com ‘chineladas’ moderadas.Com isso, é possível considerar que o discurso social é contrário ao ato de violência doméstica para quase a totalidade dos sujeitos entrevistados. No entanto, uma parte considerável acredita ser ‘natural’ a violência contra a criança. Alguns argumentam que ‘palmadas educativas’ fazem bem para a criança e repelem qualquer tipo de agressão contra a mulher.

Paradoxo? Total. O discurso da violência se perpetua em uma sociedade que julga, mesmo havendo leis que proíbem, quando é ‘bom e saudável’ usar a força contra a criança. Desse modo, uma criança que sofre agressão, poderá agredir durante sua vida. Não é de se estranhar que vivemos num país onde há muita incidência de feminicídio, pois já nos acostumamos a bater naqueles que consideramos mais fracos: mulheres e crianças. Que lástima! Fiquemos de olho nos discursos. São em pequenos gestos e falas que conhecemos a essência do ser humano. Por isso, é tão importante o estudo da língua, da linguagem, da linguística e do discurso.

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa. Autor do livro “A Linguagem da Felicidade“.