Lingua Portuguesa

“As redes sociais (…) são uma armadilha”

Por Anderson Jacob Rocha

13 de fevereiro de 2021

No Brasil, nestes tempos de covid19, ao contrário do que pudéssemos imaginar, temos percebido, ainda, a polarização política, a banalização da morte, o anti-intelectualismo. Tudo vem sendo constituído por meio de argumentações que são trabalhadas por emoções. Aliás, argumentação pela emoção é o que chamamos de retórica. Vamos refletir sobre como funcionam as nossas emoções e sobre as nossas argumentações com pessoas que não pensam como nós?

Yuval Harari, autor de Sapiens: uma breve história da humanidade, diz que devemos ter a consciência de que são vários hormônios que nos dá bem-estar e ativam nossas convicções, entre eles, a dopamina, o estrógeno, a oxitocina e a testosterona. Eles agem diretamente no nosso cérebro e nos tornam “dementes” quando gostamos de alguém ou apoiamos uma ideia, mesmo que ela não esteja muito clara para nós. Isso significa que quando eu digo algo a alguém, não significa que esse alguém irá mudar a opinião.

Você já deve ter se deparado com o fato de um amigo, um parente ou filho que tenha se apaixonado por uma pessoa que, na sua visão, não presta. É possível você convencê-lo, utilizando apenas sua fala como argumentação? Difícil, né? Pois é, são aqueles hormônios que não deixam que a pessoa perceba outros detalhes que estão em volta. Aliás, quem nunca passou por isso, não é mesmo?

Jacques Lancan, psicanalista francês, afirmou que podemos saber o que dizemos, mas nunca iremos saber o que o outro escutou. Tendo isso em vista, me lembrei de uma entrevista de Zygmunt Bauman que disse que “as redes sociais são uma armadilha”. Portanto, meu caro e minha cara, o que pode mudar a postura de alguém, é quando você consegue respeitar as diferenças e conseguir emocioná-las com o seu comportamento. Comunicar é isso! No restante, é gastar saliva ou teclas em vão. Com a palavra, o sociólogo e filósofo polonês, o Professor Zygmunt Bauman.

A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas, não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos e controlar as pessoas com quem você se relaciona.

Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado.

Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA . Doutor em Língua Portuguesa , Autor do livro: A Linguagem da Felicidade. Instagram: prof_andersonjacob. Facebook: Anderson Jacob Rocha