Lingua Portuguesa

A prática e a gramática

POR PROF. DR. ANDERSON JACOB ROCHA

20 de fevereiro de 2021

Mais vale a prática do que a gramática”. Meu pai sempre dizia isso. Hoje, pensando nesse ditado popular, após ter tido a oportunidade de me deparar com o mundo científico, inclusive com o apoio irrestrito dos meus pais, é possível saber que ele possui a sua sabedoria, por óbvio, mas podemos fazer alguns contrapontos a partir dele.

Ontem, em uma aula na Engenharia Civil, falamos sobre a história filosófica de Platão, “O mito da caverna”, onde fizemos uma reflexão sobre a realidade em que estamos e a realidade que queremos viver. Os homens da história de Platão ficavam na caverna observando as sombras de coisas reais, mas faziam questão de acreditar somente naqueles espectros, validando uma “escravidão voluntária”, crendo que estavam felizes naquela posição cômoda e representativa.

Costumo dizer que quando estudamos a língua portuguesa de modo mais adequado, o aprendizado torna-se constante porque é lúcido e reflexivo. Assim, a construção de conhecimento fica muito mais entranhada em nós. Na linha do pensamento de que “na prática, a teoria é outra”, vamos levando a vida e achamos que essa máxima é absoluta. Será mesmo? Não, não é! Se acontecer de termos que mudar a teoria ou a prática, é porque houve outros contextos, outros modos de ver, pois tudo nesta vida é intercambiável dentro do equilíbrio. Tudo!

Tudo aquilo que é funcional, pragmático, um dia, teve que ser pensado, observado, reavaliado, testado novamente. Pense bem, como é que descobriram a prática do tão amado café? Fruto colhido, secar, jeito certo de armazenar, separação de grãos, torra, os tipos de bebida, as técnicas para se fazer e outras coisas mais que nem sonho como é.

Outro exemplo, eu só sei que não preciso usar a vírgula antes do “etc”, quando fico sabendo que “etc” vem do latim “et cetera” e significa “e outros”. Desse modo, a conjunção “e” me permite o uso mais consciente da língua e irei saber que não preciso usar a vírgula antes de “e”, nesse caso. Toda essa reflexão é possível porque vivemos no meio de teorias e práticas. Assim, o que foi pensado antes, tornou-se prático.

Por outro lado, tudo aquilo que é filosófico, teórico, tem como pontos de referência, a prática, o pragmatismo. Quando nos empenhamos em entender o porquê de algo acontecer, estamos partindo da funcionalidade para a teoria, mesmo que de modo inconsciente. São práticas e teorias. Quando pensamos em uma ação que fizemos e essa pode ter nos levado ao sentimento do bem ou do mal, precisamos de um tempo para refletir o porquê daquilo.

Pode ser fazendo leituras, conversar com um amigo, chorar no ombro do seu amor, fazer terapia ou psicoterapia etc. Ou seja, precisamos pensar para melhorar a prática: essa é a missão! Do mesmo modo, querer entender mais profundamente, as diferenças entre “por que”, “porque”, “por quê” e “porquê”, partimos do modo mais raso da prática e partimos para a reflexão.

Não há prática sem teoria e vice-versa. Pare de querer apenas teorizar ou dar somente funcionalidade em tudo, inclusive em língua portuguesa. As duas coisas existem porque possuem características complementares, porque são coexistentes. O desafio é sabermos manter o equilíbrio.

PROF. DR. ANDERSON JACOB ROCHA. Autor do livro: A Linguagem da Felicidade. Instagram: @prof_andersonjacob. Youtube: Prof.Dr. Anderson Jacob