Esporte

Há 50 anos, Tostão voltava ao futebol

27 de abril de 2020

BELO HORIZONTE – A Seleção Brasileira vivia a reta final de preparação para a Copa do Mundo de 1970, no México. E Tostão a incerteza se estaria lá, depois de ser o destaque das Eliminatórias, com dez gols nos seis jogos disputados. A sua presença no time do tri começou a ser confirmada há exatos 50 anos, como recordava ontem o jornalista Alexandre Simões. Num amistoso contra a Bulgária, em 24 de abril de 1970, no Morumbi, quando ele voltou aos gramados depois de sete meses afastado. E o retorno foi vestindo a camisa 10 e colocando Pelé no banco. Sim, o Rei do Futebol foi reserva naquela tarde, em São Paulo, e carregou nas costas o número 13, o da sorte para o treinador Zagallo.

A dúvida de Tostão em relação à Copa do México teve início na noite de 24 de setembro de 1969. Menos de um mês após o Brasil garantir sua classificação para o Mundial, ele defendia o Cruzeiro numa partida contra o Corinthians, pela Taça de Prata, no Pacaembu. Aos 10 minutos do segundo tempo levou uma bolada do zagueiro Ditão que descolou a retina do seu olho esquerdo.

Tostão ainda se lembra bem do contexto daquele seu retorno à Seleção: “Com o João Saldanha eu era titular absoluto, fui artilheiro das Eliminatórias. Meu melhor momento na Seleção. Quando o Zagallo assumiu, no primeiro dia me avisou que eu seria reserva do Pelé, pois eu não era centroavante. Ele convocou Dario e Roberto, do Botafogo, e disse isso à imprensa. Eu estava voltando. Fiquei sete meses sem poder jogar. Fui liberado aos poucos. Posso dizer que corri o risco de ficar fora da Copa”.

O maior jogador da história do Cruzeiro acredita que Pelé não foi seu reserva por questão técnica, mas porque deve ter sido poupado: “lembro vagamente deste jogo contra a Bulgária, que o Pelé ficou no banco. Zagallo deveria querer me ver jogando na posição do Pelé. Ele estava me testando como reserva dele”. Um dos livros que contam a história da Seleção revela que Zagallo escalou Tostão com a 10 por acreditar realmente que ele e Pelé não poderiam jogar juntos.

“Zagallo também encontraria problemas em sua trajetória, como no empate de 0 a 0 com a Bulgária no Morumbi, quando experimentou deixar Pelé no banco, já que ainda defendia a tese, logo abandonada, de que o ‘Rei’ e Tostão não podiam jogar juntos, por serem craques com características semelhantes”, escrevem Antônio Carlos Napoleão e Roberto Assaf no livro “Seleção Brasileira 1914-2006”.

Convencimento

No jogo seguinte, o de despedida da Seleção do Brasil, em 29 de abril, no Maracanã, contra a Áustria, Tostão e Pelé voltaram a jogar juntos, como nos tempos de João Saldanha. “Zagallo estava experimentando Roberto e Dario. Ele revezava os dois como centroavante, mas não estava satisfeito com eles. No jogo de despedida, antes do Brasil ir para o México, ele já escalou o time que iria jogar a Copa.

Foi a primeira vez que eu joguei de centroavante com o Zagallo de treinador, e o Rivellino como ponta. Me lembro mais dessa partida contra a Áustria, no Maracanã, pois foi nossa despedida. O time jogou bem, apesar de ganhar só de 1 a 0”.

A partir daí, Zagallo começou a se convencer de que a formação de João Saldanha poderia ser usada por ele, mas ainda chegou ao México com a dúvida. “No México, nos primeiros treinos, eu seguia na reserva. Foi perto da Copa que virei o camisa 9 do time”, revela Tostão.