Entrevista de Domingo Destaques

Ibrachina e Sebrae lançam Projeto da “Rota do Queijo da Canastra”

Por Adriana Dias / Redação

20 de setembro de 2021

O presidente do Sebrae Nacional, Carlos Melles, com José Mário, o Zé Mário Queijeiro, vencedor de premiação na França em 2019

O presidente nacional do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas e Empresas (Sebrae), Carlos Melles, e Thomas Law, presidente do Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina), são os convidados desta edição para o Entrevista de Domingo. Ambos conversaram com a reportagem sobre a criação da “Rota do Queijo da Canastra” e a expansão desse mercado para o Brasil e outros países, uma vez que a região vem ganhando visibilidade internacional com as premiações dos seus produtos no maior mercado de queijos do mundo, que é a França.

Folha da Manhã – Olhando para os pequenos e médios produtores de queijo de Minas Gerais, premiados no mundo inteiro, qual a avaliação do senhor acerca do potencial do mercado externo, principalmente com a valorização do câmbio?

Melles – Em primeiro lugar foi realizador ver que Minas Gerais ganhou 40 prêmios na última edição do Mondial du Fromage et des Produits Laitiers, concurso de produtos lácteos realizado na França e promovido pela Guilde Internationale des Fromagers. Esse é um reconhecimento do trabalho de excelência que os produtores de lácteos mineiros executam e um ótimo caminho para que essas empresas conquistem o mundo pela qualidade dos seus produtos. A valorização do câmbio é muito boa para quem exporta e essa é uma oportunidade que tem que ser trabalhada no nosso mercado interno. Apesar das micro e pequenas empresas responderem por 99% dos empreendimentos brasileiros, o número de empresas que exportam e, principalmente, o valor exportado ainda é baixo. Atualmente, das 25 mil empresas brasileiras que exportam, uma a cada três (8,4 mil), são de pequeno porte. O volume dessa participação é alto, mas as micro e pequenas empresas exportadoras são responsáveis por apenas 1% dos valores negociados. Temos um grande desafio pela frente que é preparar as empresas brasileiras para a internacionalização e aumentar a quantidade de negócios exportadores e o valor que é exportado. O Sebrae tem desenvolvido projetos com os Sebrae estaduais e firmado convênios para que isso ocorra, além de ajudar o empreendedor a descobrir o que é necessário fazer para adaptar seu produto ao mercado internacional.

Thomas – De fato, a produção queijeira de Minas Gerais está entre as melhores do mundo. Nesse sentido, precisamos destacar que na competição ‘Mondial du Fromage et des Produits Laitiers’, realizada na França na semana passada, comprovou nossa capacidade de conquistar mercados. Depois da França, que domina o mercado mundial, veio o Brasil. Ficamos com 57 das 331 medalhas distribuídas na competição, o que nos assegurou o segundo lugar no ranking geral. Essa é uma vitória e tanto para o setor produtivo de queijos no Brasil. Veja bem, dentre os 57 prêmios para o Brasil, 40 foram para queijos de Minas Gerais. O mais interessante é que esse ‘Mundial dos Queijos’, em setembro de 2022, será realizado no Brasil, mais especificamente em Minas, na cidade de Inhotim. Tendo isso em vista, acredito que as portas do mercado mundial já estão abertas para a produção brasileira, contudo ainda existem barreiras internas que precisam ser revistas. Não há um programa que divulgue consistentemente no exterior a produção brasileira. Isso ocorre em várias áreas. Recentemente o Instituto SocioCultural Brasil-China (Ibrachina), que eu presido, firmou uma parceria com o Sebrae para o lançamento da ‘Rota do Queijo da Canastra’. Nós vamos criar conteúdo, num projeto de comunicação estratégica, para valorizar e publicizar os produtores e o cluster (conjunto) de produção. Nosso objetivo é fortalecer o conceito de origem, usando Instrumentos de Marca Coletiva e Indicação Geográfica. Essa é uma prática consolidada na Europa, mas relativamente recente no Brasil. Cremos que é uma estratégia inovadora na geração de negócios e valorização dos produtos com forte identificação com o território, o queijo “made in” Serra da Canastra. Vamos começar dentro do Brasil, atraindo compradores corporativos (representantes de hotéis, restaurantes e similares de outros centros urbanos), que possam adquirir os produtos da rota para seus estabelecimentos comerciais, fortalecendo ainda mais a marca e a região. O câmbio alto é benéfico quando pensamos em levar os produtos para fora do país, pois torna o queijo mais competitivo e facilita a conquista de espaço onde ainda não é tão conhecido. Em resumo, a divulgação dos prêmios de qualidade e a criação de uma identidade comercial mais forte é o caminho mais rápido para que seja explorado todo o potencial da produção mineira, podendo transformar o ‘made in Canastra’ em uma marca global.

FM – Num mercado cada vez mais globalizado e conectado pela internet, quais as possibilidades e ações que deveriam ser adotadas e apoiadas para que esses produtores se insiram nas plataformas (Marketplaces internacionais), no ecommerce e no marketing digital focado no exterior, típicas do processo de digital trade?

Melles – A pandemia mudou muito a cara do empreendedorismo brasileiro e do mundo. O digital ganhou mais espaço e as empresas precisam se adequar a essa nova realidade. Nesse contexto, o Sebrae está conectado com um universo de importantes atores no segmento digital, para atender às necessidades das micro e pequenas empresas. A pandemia acelerou uma mudança comportamental que já era prevista. Nesse aspecto, os empresários vão ter de pensar em uma estrutura de custos diferente, em um novo modelo de negócio. Para apoiar os donos de pequenos negócios nesse processo de digitalização, o Sebrae disponibiliza gratuitamente todo o universo de cursos, cartilhas, livros e demais conteúdos e presta consultorias específicas para o mercado internacional. Também criamos o programa Acelera Digital, que oferece aos empresários dos mais diferentes segmentos a chance de participar de uma capacitação intensiva sobre como ampliar suas vendas pela internet. Durante 10 dias, os empresários têm a oportunidade de participar de uma jornada de aceleração ágil, por meio de três encontros virtuais em grupos fechados no Whatsapp, divididos por segmento e maturidade digital, com base no nível de aplicação das tecnologias digitais no dia a dia da empresa. Ao longo da jornada, os participantes recebem mentorias sobre marketing digital direcionado ao negócio, a partir do desempenho de cada empresa na aplicação das ferramentas digitais. De forma rápida e prática, os empresários são capacitados para aplicar os conhecimentos adquiridos e promover a presença digital do negócio com resultados reais de venda.

 

“Valorizar e divulgar o que é bom devem ser uma das premissas para se alcançar nos públicos e também desenvolver novos produtos (Carlos Melles)”

 

FM – Uma das últimas pesquisas do Sebrae fala em 35% das micro e pequenas empresas que ainda não estão fazendo negócios nas redes sociais e 8% nem tem como. Em função também da má qualidade e da falta de estrutura de internet, especialmente fora dos grandes centros. Como fazer com que o micro e pequeno empresário tenha acesso à infraestrutura de qualidade para entrar nesse mercado digital, que é necessário e essencial?

Melles – O Sebrae e o Banco do Brasil acabaram de formalizar uma parceria com o Ministério das Comunicações para integrarem o Programa Wi-Fi Brasil, que irá levar mais de 1,2 mil pontos de internet banda larga para cidades com pouca ou nenhuma conexão no país, ou seja, estamos falando de inclusão digital, de romper fronteiras. Esse é um programa com potencial para impactar positivamente todas as cadeias produtivas dos municípios, inclusive os micro e pequenos negócios. Ele traz esperança, desenvolvimento e crescimento embutido no pacote da conectividade. Nada hoje é mais inclusivo do que o acesso à internet. Quando falamos em levar conexão, estamos falando de mais independência e inovação para todos os moradores. São alunos, pais, empreendedores, comerciantes, todos beneficiados com a agilidade que a internet oferece.

FM – E que ações deveriam ser adotadas para que esses produtores saibam gerir pagamentos, e tenham logística de pequenos lotes e valores, também comuns ao digital trade em curso?

Melles – Investir em capacitação é o grande segredo. Um bom plano de negócio permite que o empresário antecipe situações de crise e encontre as melhores soluções para manter o negócio de pé, mesmo diante das adversidades. A qualificação da gestão, em especial a financeira, dá ao dono da micro e pequena empresa as condições necessárias para avaliar de forma criteriosa o comportamento do fluxo de caixa e tomar as decisões mais adequadas para enfrentar a queda da receita e a inovação é o que vai diferenciar a empresa da sua concorrência, permitindo o crescimento do volume de vendas e a redução dos custos. Importante destacar que quando falamos em inovação não nos referimos apenas ao investimento em tecnologia. Medidas simples que permitam ampliar a eficiência do negócio, aproximar a empresa do cliente, criar produtos, entre outros resultados, também são formas de inovar.

FM – Em face dos desafios que os produtores vêm enfrentando para escoar sua produção e competir no mercado, qual a visão de futuro do senhor com relação a esses negócios?

Melles – O empreendedor que se preparar e se planejar, terá um grande futuro pela frente. Expandir as fronteiras e levar o negócio para outros países, por meio a exportação, é o sonho de muitos empreendedores que querem aumentar a competitividade de suas empresas. Mas, se às vezes já é difícil gerir um negócio nacional, pode parecer ainda mais complicado aprender sobre regras e culturas de outros lugares. Internacionalizar é possível, desde que o empresário siga o processo de acessar esse mercado internacional. Ele não é muito diferente do mercado nacional, uma vez que você precisa achar esse cliente e entender como ele consome, mas o ponto importante é que a estratégia de internacionalização seja conhecida por toda a equipe. Na prática, há empresas que já nascem internacionalizadas, sem necessariamente passar pelo comércio local, nacional ou estadual.

FM – Além do câmbio, temos um problema grave da burocracia para exportação que toma muito tempo, desde a papelada até a parte tributária, e nem sempre o pequeno pode concorrer com os grandes. De que forma seria possível fazer com que a pequena e média empresa possa superar esses desafios?

Melles – O Sebrae tem trabalhado com o governo federal, legislativo e com instituições parceiras como a Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) para preparar os donos de pequenos negócios a internacionalizarem seus produtos e também para que sejam criadas políticas públicas que desburocratizem todo o processo. Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a MP da Competitividade, que também visa desburocratizar as exportações. Entre as inovações está a oferta de guichê único eletrônico aos exportadores e importadores para encaminhamento de documentos e dados, o que irá facilitar todo o processo. Mas é importante lembrar que, além da burocracia, é preciso criar uma cultura exportadora e que ela deve ser trabalhada desde a criação de um negócio. Quando uma empresa já nasce com a cultura exportadora ela tem uma estrutura de mercado mais robusta e aumenta a sua competitividade e seu grau de maturidade.

O presidente do Ibrachina, Thomas Law, com seu filho Artur, demonstrando o gosto pelos queijos

FM – No Brasil, mais de 90% das empresas são formadas por micro, pequenas e médias, conforme dados do próprio Sebrae. Elas representam 50% dos empregos de carteira assinada no Brasil e 27% do PIB brasileiro. Qual foi o tamanho do impacto da pandemia nesses negócios e qual a perspectiva de recuperação?

Melles – Segundo a série de pesquisas de Impacto da Pandemia do Coronavírus nas Micro e Pequenas Empresas, que temos realizado em parceria com a FGV desde abril do ano passado, muitas empresas chegaram a apresentar uma queda de 40% no nível de faturamento, quando comparado ao faturamento anterior à pandemia. As empresas sofreram impactos das medidas restritivas que os estados tiveram que adotar para conter a proliferação do vírus e, de acordo com a 11ª edição da pesquisa, apesar do novo movimento de reabertura e da diminuição das restrições promovidas pelos governos estaduais e municipais, 79% das pequenas empresas entrevistadas alegaram queda de faturamento. No entanto, acredito que o aumento da vacinação, a redução das restrições e políticas de incentivo ao crédito que foram criadas durante esse período irão refletir um melhor resultado mais à frente.

FM – O que o Sebrae vem fazendo para estimular a cultura e a educação cooperativista em Minas? E, iniciativas como a criação da ‘Rota do Queijo da Canastra’, com a produção de site, livro, documentário e reportagens sobre a região e a produção de queijos podem dar mais visibilidade e ampliar o mercado para esses produtores, principalmente no mercado internacional?

Melles – Sem dúvida alguma. Iniciativas que valorizam os produtos e os tornam mais visíveis para o mercado internacional fazem parte do processo de aquisição de novos clientes. Valorizar e divulgar o que é bom devem ser uma das premissas para se alcançar nos públicos e também desenvolver novos produtos.

Law – Como dizem: ‘a propaganda é a alma do negócio’. Todos estes materiais de divulgação, quando bem produzidos e apresentados para as pessoas e empresas certas, podem impactar positivamente nas vendas. A tradução para o inglês torna as informações sobre a qualidade de nossos produtos acessível ao mercado internacional, que é enorme. Mas a tradução para o mandarim, por exemplo, e a aproximação com este público, abre possibilidades gigantescas. Há pouco tempo eu falava com produtores de café no Espírito Santo. Eles disseram que o sonho do produtor era que os chineses consumissem mais café. Como presidente da Comissão das Relações Brasil-ONU da OAB Federal (Cebraonu), nós defendemos que haja um crescimento econômico sustentável.

“O Ibrachina e o Sebrae patrocinarão o projeto de implantação, divulgação e consolidação da ‘Rota do Queijo da Canastra’, com a valorização do produto e a preservação da cultura e tradição do território, além de disseminar sua identidade (Thomas Law)”

FM – A China é um dos maiores mercados consumidores do mundo e vem ampliando as importações de carnes, vinhos e queijos. Há espaço para a entrada da produção da Canastra, já que o queijo vem recebendo reconhecimento internacional?

Law – Conforme já destaquei, esse reconhecimento internacional é um facilitador, mas ainda não ocorre o mesmo reconhecimento que possuem algumas regiões que estão consolidadas, que têm um histórico bem conhecido. A China é um mercado que vem sendo conquistado por diversos produtos do agribusiness brasileiro, como a carne. A demanda por queijos na China está crescendo e as previsões de crescimento são otimistas, mas ainda existem barreiras ao consumo. Há um relatório da Global Data Consumer mostrando que o mercado de queijos da China ainda é pequeno quando comparado aos segmentos de laticínios, como leite líquido e iogurte. Mas está se expandindo e tem projeção de crescimento na próxima década. As projeções de crescimento médio anual indicam que será cerca de 13%. Na culinária chinesa, os aromas e sabores do queijo são diferentes do que temos no Brasil. Portanto, são necessárias adaptações na produção para se adequar ao gosto dos consumidores chineses para abrir o mercado ainda mais. O consumo médio de queijo per capita na China é de 300 gramas. A mudança está ocorrendo, mas de forma lenta, por isso um passo importante para os produtores brasileiros em geral é fazer estudos sobre a percepção do grande público na China sobre queijos, identificando quais segmentos deveriam ser priorizados. Precisamos ser criativos e apresentar um produto no mercado chinês como uma novidade.

FM – A China é o maior parceiro comercial de Minas Gerais, principalmente na área de commodities. Os produtores de queijo podem aproveitar dessa relação comercial já existente para se beneficiar com novos negócios?

Law – A China é o principal parceiro comercial de vários estados brasileiros há mais de uma década. Por exemplo, em 2019, o território chinês foi o destino de 30% das exportações mineiras, com um total de US$ 7.7 bilhões. A maior parte das exportações é de commodities, como soja e carne, que têm baixo valor agregado. A melhor estratégia para novos negócios, pensando num cenário pós-pandemia, seria mais viagens de comitivas de Minas Gerais para feiras na China, que abrem portas importantes de acesso. Os produtores podem se aproveitar dessa relação comercial já consolidada, buscando aumentar o portfólio do que é oferecido para o mercado chinês. Porém, é preciso atentar que além de apresentar produtos e serviços, é necessário atrair parceiros em potencial. Também é necessário aprimorar os conhecimentos sobre o mercado asiático e a cultura chinesa.