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Thiago Ventura e a comédia da quebrada

Por Guilherme Sobota/ Especial

15 de agosto de 2020

Thiago Ventura está em Pokas, já disponível na Netflix. / Foto: Divulgação

Thiago Ventura é hoje considerado um dos principais humoristas brasileiros – e humorista de stand-up, a prática que, no Brasil, foi popularizada no início dos anos 2000 por grupos como o Comédia em Pé e o Clube da Comédia, com Rafinha Bastos, Danilo Gentili, Fábio Porchat e Diogo Portugal, entre outros. Nos últimos 15 anos, a comédia brasileira tomou rumos diferentes, e uma das coroações mais significativas até agora é o especial Pokas, o primeiro de Ventura – paulista de Taboão da Serra de 31 anos – naquela que é hoje a maior plataforma de humor stand-up do mundo, a Netflix.

Thiago nasceu na “quebrada”, fez faculdade de administração e trabalhou em banco antes de se voltar para o que sabia ser sua vocação, o stand-up. Conhecido na escola por contar histórias e fazer as pessoas rirem, ele teve contato com o gênero na histórica entrevista de Jô Soares com Diogo Portugal em 2006, quando o comediante curitibano listou apresentações, nomes e clubes de comédia, dando projeção nacional ao gênero. “Quando vi ele fazendo, tive certeza que poderia fazer também”, diz Ventura numa ligação com a reportagem.

Comecei a fazer meus textos com 21, estudava ainda por hobby, e decidi participar de open mics (espaço que os clubes dão para comediantes iniciantes). Foi muito bom na primeira, a segunda ok, mas na terceira não queria fazer mais”, ri.

Foi quando aprendi: se a comédia não é a única coisa que você pode fazer na vida, desista”, diz. Mas ele perseverou. Baixava vídeos de comediantes nacionais e internacionais, com legendas, para aprender estratégias de set up (preparação da piada) e punchline (frase que arremata), delivery (o modo de contar) e outros gatilhos, mas também para saber o que outros estavam fazendo para não fazer igual. “Eu fazia pastas de anotação e entendia como cada um se comportava no palco”, conta

Em 2010, começou a compartilhar vídeos de seus próprios sets, e viu sua audiência crescer aos milhões. Pokas é o seu terceiro especial, e o quarto, Modo Efetivo, estava em turnê antes da pandemia de covid-19 fechar os clubes do mundo todo.

Ventura usa o ensinamento de Dave Chappelle, uma de suas principais influências: “Tudo o que você precisa saber para ser comediante é tudo aquilo que você já sabe”. Fazendo piadas sobre o dia a dia na quebrada e sobre modos de pensar a vida, relacionamentos e família, desse ponto de vista, Ventura trouxe para a comédia brasileira um elemento social novo, inserindo diversidade num universo antes dominado por uma elite cultural pouco ou nada preocupada com a realidade brasileira.

No seu método de trabalho, ele anota situações e ideias em um aplicativo de celular, e depois as encaixa em momentos apropriados ao assunto de que está tratando – em Pokas, já disponível na Netflix, ele fala muito sobre entender de onde veio e aonde chegou com o seu trabalho, bem como sobre erros do passado e aspectos do presente: “Vocês nunca vão me ver falando de política, sabe por quê? Eu não manjo nada. Sabe de uma coisa que eu manjo? Idiotas”.