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Série traz revelações e gera polêmica

22 de janeiro de 2021

Foto: Divulgação

Às costas do Brasil, mas como se estivessem em outra galáxia, países da América Latina receberam o rock desde suas calças curtas, em 1957, a partir do encorajador fenômeno planetário em espanhol Ritchie ‘La Bamba’ Valens, e o transformaram em seu com poesia, fúria e personalidade. As duas primeiras qualidades o rock traz em seu DNA para se estabelecer em qualquer lugar do mundo. A terceira, não.

Ou seja, antes mesmo de ser absorvido no Brasil com algum caráter particular, argentinos, mexicanos, uruguaios, peruanos e chilenos o usavam à sua forma, filtrado em suas tradições, como uma arma que não havia sido apontada da mesma forma nem em seus berços. Sem governos ditatoriais a combater nos Estados Unidos dos anos 1950 ou na Inglaterra dos 1960, o rock aprendeu a ser rock mesmo, de dimensões sociais coletivas e não apenas comportamentais, sob as rajadas das ditaduras latino-americanas.

Há muito mais conjecturas a se fazer depois dos reveladores seis episódios da série Quebra Tudo – A História do Rock na América Latina que a Netflix oferece desde janeiro. São quase 100 entrevistas, imagens de arquivo valiosas e, para os brasileiros, um deleite extra. Salvo nas passagens sobre artistas como os argentinos Soda Stereo e Café Tacuba, os colombianos Aterciopelados ou os mexicanos superstars do Maná, que conseguiram de algum modo furar o bloqueio linguístico por algum tempo – o fator apontado como a principal causa do muro industrial erguido aos hispânicos pelo lado português do continente –, tudo é uma saborosa descoberta narrada sempre em paralelo aos tremores políticos provocados por presidentes ora assassinos, ora assassinados.

A festa dos hermanos não passou pelo Brasil por falta de interesse das gravadoras, que patrocinaram o intercâmbio continental em língua espanhola sem envolver o Brasil. A sensação, então, é de perda. O quanto perdemos por não saber mais do uruguaio Hugo Fattoruso, antes de ser quem se tornou, como roqueiro do Los Shakers e por não ouvirmos os argentinos do Joven Guardia (ninguém consegue dizer se foram ou não inspirados pela Jovem Guarda brasileira) cantando El Extraño de Pelo Largo.

De quanta poesia fomos privados sem os LPs do genial Luis Spinetta, líder do fabuloso grupo Almendra. Quanta energia deixamos de conhecer por não termos os discos do mexicano de Tijuana Javier Bátiz, de vocal poderoso e dono de uma versão estupenda de The House of The Rising Sun. O homem que, depois de ser visto cantando na praça por um menininho de 5 anos chamado Carlos Santana, foi procurado pela mãe do futuro maior guitarrista de rock da língua espanhola no dia seguinte: “Por sua culpa, meu filho ficou sem dormir a noite toda”.

E que história é essa do Woodstock mexicano realizado às margens do Lago Avándaro, em 1971, quando se esperavam 5 mil pessoas e apareceram – até onde conseguiram contar – algo como 250 mil? Como o rock, por seu potencial explosivo, foi proibido no México por oito anos? E de que forma a MTV Latina conseguiu unificar esse gigantesco bloco produtor de um som vigoroso e cheio de influências que vão da cumbia ao tango?