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‘Police’, um ensaio sobre conduta ética

2 de fevereiro de 2021

Drama ‘Police’, estrelado por Omar Sy e Virginie Efira, mostra os dilemas no trato de um refugiado. / Foto: Divulgação

Diante do fenômeno em que a série Lupin se transformou no streaming, tornando-se um dos títulos de maior audiência na Netflix do dia 8 de janeiro para cá, todos os filmes com Omar Sy como protagonista entraram em alta, mobilizando plataformas digitais, circuitos exibidores e eventos como o Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, no qual ele virou “a” atração.

No menu desse fórum promocional do audiovisual francófono – realizado outrora presencialmente em Paris e, este ano, promovido online – a presença dele em Police transformou esse thriller psicológico num ímã para distribuidores e exibidores de todo o mundo.

Sy – astro nascido em Trappes, Yvelines, a uma hora de Paris, cuja mãe veio da Mauritânia e o pai veio do Senegal – protagoniza esse ensaio sobre conduta ética ao lado de Virginie Efira e Grégory Gadebois, sob a direção de Anne Fontaine.

Exibido no encerramento do Festival de Berlim de 2020, em abarrotadas projeções, o filme, ainda inédito no Brasil, parte de um romance de Hugo Boris para estudar os dilemas de três policiais empenhados em levar um refugiado (Payman Maadi, de A Separação) ao aeroporto Charles De Gaulle. A tarefa deles é deportá-lo para a pátria onde ele sofreu toda a sorte de mazelas.

O que me levou a essa história foi a possibilidade de discutir o que significa para uma pessoa negra vestir uma farda num país como a França e ter como sua responsabilidade deportar um refugiado”, disse Sy na Berlinale, onde foi ovacionado por seu desempenho em um papel sem qualquer conexão com o perfil bem-humorado que o consagrou em Intocáveis, há dez anos.

Realizadora de Coco Antes de Channel (2009) e Marvin (2017), Anne cria uma dialética de sentimentos que esculpe múltiplas dimensões em seus personagens. Logo no início, vemos a policial Virginie (papel de Efira) viver uma relação abusiva em seu desgastado casamento.

Ela se levanta antes da hora, dá atenção ao filho e sai para patrulhar as ruas tendo dentro de si um peso, a ser contextualizado com o colega Aristide (Sy). Os dois compartilham mais do que o senso de proteger e servir: existe um desejo mal resolvido entre eles, que vai mudar a trama do longa. Mas, até lá, eles têm compromissos que não passam por suas vidas afetivas, ainda que tangenciem suas convicções. “Tudo neste filme passa pelo corpo”, disse Efira em Berlim.

Em diligência, Virginie e Aristide são acompanhados por um terceiro policial, Erik (Gadebois), um alcoólatra que cheira copos molhados de conhaque para ficar em paz com seu vício. Erik é um satélite aparentemente periférico aos desejos que se fortalecem, mas também se repelem, entre Virginie e Aristide, testados em uma missão inicial contra um agressor de mulheres. É um teste inicial para um exame bem mais difícil: levar um imigrante expatriado (papel de Maadi) para pegar um avião.

A jornada desses três é um jogo de máscaras que disfarça uma série de preconceitos culturais na França”, disse Sy na Berlinale. “Muitas camadas sobre choques cultuais são reveladas conforme a relação desses policiais no carro se aprofunda”.