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“O Poço” traz crítica à desigualdade

7 de abril de 2020

Imagine uma prisão vertical com centenas de andares. Em cada piso, há dois prisioneiros. No meio, um poço pelo qual passa um elevador trazendo alimento. Ele para em cada andar por um tempo determinado, dois minutos apenas. As pessoas comem o que podem. É proibido armazenar. Os de cima têm toda a comida à disposição e podem se empanturrar. À medida que o elevador desce, vai sobrando cada vez menos. A partir de certo andar, as pessoas têm de se contentar com restos. Não fica nada para os de baixo. Assim é o filme espanhol “O Poço”, um dos mais acessados na Netflix nos últimos dias.

Como você pode ver, o filme do estreante em longas-metragens Galder Gaztelu-Urrutia é uma ficção distópica com ares de crítica à desigualdade social. Imagina um dispositivo um tanto impensável para falar de algo concreto, que existe em praticamente qualquer sociedade do mundo contemporâneo. Resumindo: enquanto uns poucos comem demais, o resto morre de fome. Não há equilíbrio.

O projeto tem outras implicações. Veja-se, por exemplo, o personagem principal, a partir do qual a trama se desenvolve, Goreng (Ivan Massagué). Como cada prisioneiro tem o direito de levar consigo um objeto do mundo exterior, ele optou por um volume do romance Dom Quixote, de Cervantes. Goreng tem por companheiro de cela um homem mais velho, Trimagasi (Zorion Eguileor). Experiente, Trimagasi escolheu levar consigo uma faca de guerra, bem afiada. Num ambiente desses, o que vale mais, cultura literária ou uma boa arma branca?

Há outros detalhes. A cada mês, os prisioneiros trocam de parceiros e de andar, aleatoriamente. Podem subir ou descer. Na mudança, podem encontrar um companheiro melhor ou um psicopata.

A história se repete num ritual sádico diário. São poucas as variações, mas elas existem porque a trama tem de andar.

O recado está dado desde o início: o dispositivo é cruel e não se pode esperar piedade, humanismo ou compreensão de quem está a ele submetido. Não há diálogo. Os de cima não respondem. Inútil falar com os de baixo, porque são inferiores, ao menos neste mês “O Poço” oferece-se com uma lente ampliada da sociedade contemporânea, na qual a solidariedade e o comportamento de grupo foram abolidos em nome de um individualismo feroz.