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O lendário Walter Mercado

14 de julho de 2020

Astrólogo morto no ano passado se tornou famoso na America por suas previsões na TV nos anos 1970. / Foto: Divulgação

Captar a figura de Walter Mercado (1932-2019) não é uma tarefa simples. Vidente, milagreiro, profeta, extraterrestre, astrólogo e rei dos memes. Todas essas são facetas da excêntrica personalidade do porto-riquenho que ganhou fama na década de 1970 com suas emblemáticas aparições na TV e no rádio.

Naquela época, milhões de famílias da América Latina e, posteriormente, de diversas outras partes do mundo, se sentavam diante do aparelho de televisão e esperavam pela previsão astrológica, prontas para absorver a orientação positiva e cheia de trejeitos dada por Mercado, até que ele encerrasse com seu clássico bordão de despedida: “Mucho, mucho, mucho amor”. Ligue djá é outra de suas expressões incorporadas à linguagem coloquial daquela época.

Depois de algumas décadas fascinando os espectadores, o ícone latino desapareceu da mídia e uma série de teorias surgiram em torno do sumiço repentino. Produzido pela Netflix, o documentário Ligue djá: O lendário Walter Mercado traz as respostas.

Embora o personagem principal dessa trama tenha morrido em novembro do ano passado, em decorrência de uma falência renal, Walter Mercado viveu o bastante para contar a própria história diante das câmeras dos diretores Cristina Costantini e Kareem Tabsch.

O documentário, exibido pela primeira vez em janeiro passado no Festival de Sundance, nos Estados Unidos, chegou nesta semana à Netflix. O título recupera a história do que foi o fenômeno Walter Mercado e expõe a batalha judicial que o astrólogo travou contra seu ex-agente Bill Bakula pela propriedade de sua persona.

Depois de cortar laços comerciais com a empresa de entretenimento Bart Enterprises International, Mercado queria controle total sobre seu nome. A batalha legal durou anos, até que ele ganhou os direitos de volta em 2011. No filme, Walter Mercado e Bill contam seus respectivos lados da história. A relação que os dois tinham antes do imbróglio é descrita, inclusive, como tendo sido bastante carinhosa.

Outras personalidades também aparecem no documentário dando depoimentos ou se encontrando com Mercado, como é o caso do ator, cantor e compositor Lin Manuel Miranda. Criador do musical Hamilton, o maior sucesso da Broadway nos últimos anos, Miranda é hoje o artista de origem porto-riquenha mais conhecido e mais bem-sucedido dos Estados Unidos.

No auge de sua fama, Mercado fora visto por mais de 120 milhões de espectadores. Muitos projetavam em sua imagem a figura de um amigo, um mentor que poderia levá-los na direção certa, a despeito do fato de que, nos anos 1970, sua figura fosse bastante incomum e extravagante até para os ícones televisivos.

Com trajes vibrantes, maquiado, adornado com anéis e colares e com um inconfundível penteado, Walter Mercado não se limitava a um padrão de masculinidade e o filme usa disso para abordar as hoje muito em voga questões de gênero e sexualidade.

Na época em que ganhou fama, o astrólogo enfrentou a homofobia e o conservadorismo, tanto dos colegas na TV como de parcela dos espectadores, que não se conformavam com sua figura espalhafatosa. Ligue djá mostra que especulações sobre sua sexualidade eram frequentes.

LIGUE DJÁ: O LENDÁRIO WALTER MERCADO. De Cristina Costantini e Kareem Tabsch. 96 minutos. Disponível na Netflix