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Novos velhos tabus

24 de junho de 2020

Foto: Divulgação

Violência contra a mulher, racismo, diferença de oportunidades e machismo. Todas as velhas questões ainda não resolvidas do mundo contemporâneo voltam à tona na segunda temporada de “Coisa mais Linda”. A produção nacional da Netflix, ambientada na época da explosão da bossa nova, retorna com uma leva inédita de seis episódios.

O cenário é 1960, década que começa mal para Malu (Maria Casadevall). O traumático desfecho do primeiro ano da trama é o mote para o início do segundo, com a protagonista em plena recuperação física e mental. Não bastasse isso, ela ainda tem que lidar com o retorno do marido, Pedro (Kiko Bertholini), o mesmo que a havia abandonado, roubado e motivado a criação do clube que dá nome à série.

Os novos episódios mostram Thereza (Mel Lisboa) tentando se adaptar tanto à nova conformação familiar quanto ao novo emprego, e Adélia (Patty Dejesus) enfrentando um grave problema em meio à alegria do casamento. Ao grupo de garotas se une Ivone (Larissa Nunes), irmã caçula de Adélia, que já havia aparecido na temporada inicial, mas agora ganha protagonismo.

Com a aproximação com Malu, a Ivone revela maturidade e você a vê desabrochar. Uma das frases dela que me tocam muito é quando diz que ‘nem tem mesmo chance de errar’ (primeira da família a trabalhar com uma máquina de escrever, a personagem sonha em se tornar cantora). Quando a Malu, uma mulher branca, de classe alta, se livra das condições de dona de casa, por mais que encontre riscos eles são muito diferentes dos de Ivone. Vejo-a como um retrato da juventude negra, que entende a realidade de onde veio”, comenta a atriz Larissa Nunes, que interpreta Ivone.

O crescimento dos personagens negros é um ganho dos novos episódios, com destaque para o retorno do pai das duas. “Além da Ivone, a Adélia traz todo um núcleo negro agora. E não é figuração, são todos personagens fortes”, comenta Pathy Dejesus, que fala da importância da personagem para sua carreira.

Tenho uma vida artística de 27 anos (ela iniciou a carreira como modelo), quase 10 como atriz, o que é relativamente pouco. Fiz muita coisa, mas Adélia é minha primeira protagonista. Na primeira temporada, com outras três mulheres da mesma faixa etária, muita gente perguntou quem era aquela atriz. Ou seja, as outras (brancas) já haviam tido possibilidades. Então, é de extrema importância a representatividade na televisão, pois se você não se enxerga, você não existe”, acrescenta Pathy.

Na opinião de Maria Casadevall, a segunda temporada dá “foco maior às trajetórias individuais” das personagens.

Nem todos os dramas são resolvidos em um episódio. Existem desdobramentos até institucionais da ausência da Lígia (Fernanda Vasconcellos). E você vê a Malu recuando após um ato brutal de violência.

Outra que sofre mudanças é Thereza (Mel Lisboa).

Na primeira temporada, ela era a feminista, a autônoma, a dona de si. Diante de um fato trágico, ela se vê fragilizada. Acho interessante colocá-la assim, pois todos passamos por vários momentos na vida. Isso acaba criando empatia pela personagem.

Coisa mais Linda” nasceu com a vocação de refletir, com olhar contemporâneo, sobre a situação da mulher em outra época. Mesmo se propondo a discussões importantes, a série, que tem seu forte na direção de arte e na fotografia, traz acentuado ranço das novelas. A estrutura é clássica, com personagens (principalmente os masculinos) bastante estereotipados e rasos. As soluções para os problemas são rápidas demais.