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Nara Leão ganha nova biografia

11 de fevereiro de 2021

“Ninguém Pode com Nara Leão - Uma Biografia” é de autoria do jornalista Tom Cardoso. / Foto: Divulgação

Roberto Menescal costuma dizer que Nara Leão era a cantora “mais inteligente” do Brasil. O compositor fala com propriedade, afinal, ambos vitorienses radicados desde cedo no Rio de Janeiro, conheceram-se ainda na infância, tiveram aulas de violão com o mesmo professor e foram amigos e companheiros de trabalho de uma vida toda.

É justamente essa inteligência a que Menescal se refere – não está restrita ao intelecto, mas também à capacidade de Nara se mover dentro da música brasileira de maneira particularmente racional – que o jornalista Tom Cardoso destrincha no recém-lançado perfil Ninguém Pode com Nara Leão – Uma Biografia.

A ideia do livro nasceu há pouco mais de dois anos com o incentivo do crítico Tárik de Souza, que assina o prefácio.

Eu achava que a Nara era um pouco apagada, cantora de bossa, mas ele foi desconstruindo essa ideia. Foi a personagem que mais me surpreendeu, não tinha nada de frágil, uma cantora da música popular, e não apenas da bossa. Uma mulher que largou tudo e foi estudar psicologia”, diz o autor, que já biografou nomes como Sócrates, Sérgio Cabral Filho e Paulo Machado de Carvalho.

Cardoso parte da (já batida) rixa entre Elis Regina (1945-1982) e Nara (1942-1989) para mostrar como a segunda estava longe de ser purista e sempre antenada no que estava por vir. Elis, que, desde 1965, ganhara um programa de televisão, O Fino da Bossa, após se consagrar como vencedora do I Festival de Música Brasileira com Arrastão, viu a audiência do seu musical semanal cair pelas tabelas com o avanço da Jovem Guarda, comandada por Roberto Carlos e sua turma.

Elis, então, ao lado de Edu Lobo, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré e o futuro tropicalista Gilberto Gil, saiu pelas ruas do centro de São Paulo em uma passeata de prestígio à música brasileira que entrou para a história como a Passeata Contra a Guitarra Elétrica, em 1965. Nara achou tudo um horror. O ocorrido alimentou a troca de farpas entre as duas por meio da imprensa.

Anos antes, Nara, chamada de musa da bossa nova, deu as costas para a turma que ensaiava no apartamento de seus pais, o advogado Jairo Leão e a professora Tinoca, de frente ao mar de Copacabana, e surpreendeu a todos ao gravar em seu disco de estreia, Nara, de 1964, sambas de Zé Kéti, Carlota e canções engajadas de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes.

A versão consagrada é a de que Nara rompeu com a bossa ao terminar seu namoro, em 1961, com o produtor e letrista Ronaldo Bôscoli, um dos líderes do movimento e responsável por torná-lo comercial, após ser traída. Cardoso, discorda.

Não podemos reduzi-la a isso. Ruy (Castro, autor de livros como ‘Chega de Saudade’ e ‘A Onda Que Se Ergueu no Mar’) é meio que dono da história da bossa, mas acho que ele contou a versão do ponto de vista do Bôscoli. Não foi uma desilusão amorosa que moveu a Nara. Sem fazer muito barulho, de maneira muito natural, ela era totalmente de vanguarda. Quando todo mundo esperava que ela gravasse os sucessos da bossa em seu primeiro disco, Nara, que àquela altura já estava envolvida com o pessoal do CPC (Centro Popular de Cultura) e do Cinema Novo, foi buscar os compositores do morro”, diz.

NINGUÉM PODE COM NARA LEÃO. Autor: Tom Cardoso. Editora: Planeta (240 págs., R$ 49,90 papel, R$ 30,90 e-book)