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Jango e os bastidores do poder

16 de julho de 2020

O presidente João Goulart em meio às tropas que o derrubariam. / Foto: Divulgação

É truísmo dizer que o momento político do Brasil inspira reflexão. O questionamento atual deve ser sobre a maneira como a faremos. A Memória e o Guardião, de Juremir Machado da Silva, publicado pela Civilização Brasileira, descortina um belo caminho para sanar essa nova/velha inquietação. O livro é escrito a partir da correspondência do presidente João Goulart, em seu curto, mas marcante, mandato.

Embora remeta à década de 1960, o livro mostra-se extremamente atual. E isso se dá pela forma como a rica correspondência é abordada. Juremir, autor de romances históricos e livros reportagens, como Viagens ao Extremo Sul da Solidão e Adios Baby, faz uma interessante abordagem que contempla não exatamente o elemento biográfico de Jango, mas a forma como a sociedade brasileira percebia o presidente.

Pela correspondência de Jango, Juremir demonstra como a política brasileira possui um singular mecanismo a atestar um passado arcaico. Tal fato se torna evidente quando a “lógica do pedir” se sobressai à maneira como se organiza a vida política brasileira. Todos pedem ao presidente da República. Políticos dos diferentes escalões, profissionais da imprensa, militares, cidadãos comuns etc. Em grande medida, reportam-se ao presidente com um interesse claro para a realização de um anseio muito particular: que vai desde cargo no funcionalismo público a liberação de crédito bancário para compra da casa própria.

Segundo Juremir, a singularidade do que está em jogo é a capacidade de Jango se mostrar sensível a essas demandas. A Memória e o Guardião desnuda um personagem central para a história política e social brasileira. Jango estava propenso a ouvir, por ser sabedor da importância desse ato. De modo simultâneo, estamos diante de um sujeito absurdamente político, ciente da mecânica institucional, legal, das normas envolvidas, disposto a não feri-las em nenhum momento.

Embora possuísse informações privilegiadas – algo natural para um presidente – não abre mão de seguir a legalidade, mesmo sabendo que um golpe caminha em sua direção. Em momento algum fere a norma legal. É um ator político que confia cegamente nas instituições, suportes para uma democracia.

Juremir, ao descrever Jango, volta-se para a sociedade brasileira. Aqui, o atento olhar sociológico se faz presente – além de jornalista, o autor é doutor em Sociologia pela Sorbonne. O princípio relacional desponta ao descortinar as interações entre os mais diversos tipos de pessoas com o poder, revelando muito da forma como esse poder, na figura do presidente da república, é concebido. Do sujeito mais simples ao mais destacado na estrutura do Estado, todos compreendem a política segundo a “lógica do favor”.

Mas, se por um lado, há o crédito científico, com passeios biográficos na figura de Jango, há também, por outro, o esmero da literatura. Ao promover um olhar justo a o presidente deposto, Juremir não se vale de adjetivos em excesso. Logo, direcionando-nos para uma perspectiva mais objetiva, comum ao teor documental do relato histórico, desvia-se desses eventuais abusos, direcionando nossa percepção sobre Jango. Os adjetivos, pontuais, aparecem no momento de categorizar segmentos da sociedade, como a elite, atores políticos e sociais, personalidades expressivas.