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Filme retrata carreira de Migliaccio

Por Luiz Zanin Oricchio / Especial

10 de julho de 2021

Longa trajetória profissional como ator, diretor, roteirista e produtor é tema de ‘Flávio Migliaccio, O Brasileiro em Cena’. / Foto: Divulgação

Flávio Migliaccio (1934-2020) foi um artista múltiplo: ator, diretor, roteirista e produtor. Acima de tudo, ator de muito talento, admirado pela crítica, popular entre adultos e muito querido pelo público infantil. Fez peças engajadas no Teatro de Arena, personagens muito divertidos em filmes para crianças, e representou O Povo no clássico de Glauber Rocha, Terra em Transe (1967). Terminou de maneira triste no tristíssimo Brasil de 2020, mas deixou um legado muito alegre e positivo. É o que vemos em Flávio Migliaccio, O Brasileiro em Cena, dirigido por uma trinca de cineastas – Alexandre Rocha, Marcelo Pedrazzi e João Mariano, o Tuco – e tendo como um dos roteiristas Marcelo Migliaccio, filho do ator.

O título do filme é particularmente feliz, e define o personagem. Migliaccio foi um autêntico ator brasileiro, cepa híbrida de necessidade, improviso, dedicação e talento. O material do documentário é tirado de entrevistas com o autor, uma mais recente e outras mais antigas. Além delas, há o material de arquivo, filmes realizados e trechos de uma peça de teatro em que o personagem, já velho, dialoga com ninguém menos que…Deus.

A obra se chama Confissões de um Senhor de Idade. Nela, realizando um balanço de vida, o “senhor de idade” Flávio Migliaccio faz cobranças ao Todo-poderoso. “Onde estava o Senhor quando ocorreram a Peste Negra, o Holocausto, a Guerra do Vietnã, o ataque às Torres Gêmeas…Onde estava quando chamaram o Dunga para dirigir a seleção brasileira?”

Esse toque de humor acompanha todo o filme. Um humor terno, delicado, triste às vezes. Migliaccio conta sua infância numa família paulistana pobre, de 11 irmãos, pai barbeiro. Lembra, de maneira despretensiosa, quando chegou ao teatro, no caso o mitológico Arena, de Augusto Boal.

As fases de sua carreira vão se sucedendo de maneira simples, quase casual, sem qualquer afetação. A chegada ao Rio, a participação no Cinema Novo, o sucesso na Globo. A fama, o dinheiro. Depois o peso da fama, a necessidade de se sentir só. E, contradição, o peso do anonimato tão buscado, mas que o artista não mais suporta ao não ser reconhecido pelas pessoas na rua. Tudo isso é contado sem atropelos, num ritmo amigável, sem necessidade de esmagar o espectador sob uma pilha de informações.

A maneira como Migliaccio fala de si é toda particular. Nenhuma teoria sobre o ato de atuar, nenhuma pretensão, nenhuma sensação de pertencer a uma casta privilegiada. Parece apenas a trajetória de um brasileiro nascido pobre, que precisava ganhar a vida e foi sendo conduzido, pelo acaso da necessidade, à carreira artística. Modéstia total, comovente.

Sente-se falta, aqui e ali, de imagens que são pontos de luz na carreira de Migliaccio. Destacaria, por exemplo, a ausência dele em Boleiros, de Ugo Giorgetti, interpretando o melancólico ex-jogador que não reconhece no velho de agora o jovem que magnetizara multidões nos estádios como craque do Corinthians.

No entanto, vista em retrospecto, como no documentário, sua trajetória parece feita de luz. Os trechos de filmes mostrados nos lembram da vocação cômica e da intensidade da interpretação dramática de Migliaccio. Uma emoção represada, expressa como a contragosto para melhor ressoar na sensibilidade do público. Migliaccio sabia ser divertido, como nos filmes infantis do Tio Maneco ou na série Shazan, Xerife & Cia., em parceria com Paulo José. Pensava, escrevia e desenhava. Era um ser de pura criação.