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Filme homenageia Hitchcock

Por Mariane Morisawa / Especial

18 de Maio de 2021

Em ‘A Mulher na Janela’, que celebra o cinema do mítico diretor inglês, a atriz Amy Adams vive personagem que enfrenta um grande trauma. / Foto: Divulgação

Na sala de conferência de um hotel em Los Angeles, as cadeiras estão bem separadas. Sobre a mesa, pequenos frascos de álcool gel, artigo já em falta nas farmácias locais. “Está preocupante”, diz a atriz Amy Adams, num dos últimos eventos presenciais de imprensa de Hollywood, de A Mulher na Janela, dirigido por Joe Wright. Era 5 de março de 2020.

Os Estados Unidos tinham 19 mortos pelo então chamado novo coronavírus. Dali seis dias a NBA suspenderia a temporada, Tom Hanks e a mulher Rita Wilson testariam positivo, e a Organização Mundial de Saúde declararia a pandemia. O mundo entraria numa realidade digna de um filme de Alfred Hitchcock. Por conta disso, A Mulher na Janela, que teria estreado em maio do ano passado, só agora pode ser visto pelo público. Mas não nos cinemas, e sim na Netflix – a produção da Fox passou para a Disney com a aquisição, e o estúdio acabou vendendo para a plataforma de streaming.

Coincidentemente, o longa-metragem baseado no best-seller de A.J. Finn tem ares hitchcockianos ao falar de uma mulher, Anna Fox (Adams), que passa a sofrer de agorafobia depois de um trauma. Morando sozinha num apartamento em Manhattan, espia os vizinhos pela janela e acaba sendo testemunha de um ato de violência.  Ou pelo menos acha que sim.

Sempre fui fã do filme noir, dos thrillers. E acho que meio que trouxe aspectos do gênero a meus outros filmes. Mas nunca tinha feito um thriller noir de fato”, diz ao jornal O Estado de S. Paulo o diretor Joe Wright, de Orgulho e Preconceito (2005), Desejo e Reparação (2007) e O Destino de uma Nação (2017), entre outros.

A Mulher na Janela tem logo no início uma homenagem a Janela Indiscreta (1954). “Queria de cara reconhecer minha dívida e seguir adiante com nossa exploração”, diz o cineasta. “Mas eu sempre me inspiro na especificidade de Hitchcock e na humanidade de Robert Bresson. O filme é uma carta de amor ao filme noir, de certa maneira.” O desafio, segundo ele, era como tornar um longa inteiramente passado dentro de uma única casa ser visualmente interessante.

Sempre tento me impor limitações e estou acostumado a trabalhar no teatro”, afirma Wright. “Mas, desde Peter Pan, o auge da minha loucura barroca, tenho tentado simplificar e ficar mais minimalista, o que é muito mais difícil do que ser barroco.

Para Amy Adams, rodar um filme todo numa locação fechada não foi um desafio, mesmo que fosse uma casa construída em estúdio, para que o diretor pudesse remover paredes e filmar cenas que levassem o espectador para dentro do ambiente. “Eu adorei”, diz ela, para quem Um Corpo que Cai, de Hitchcock, foi o primeiro longa em que enxergou a arte do cinema. “E eu não sei o que isso revela sobre mim. Mas era tudo muito controlado”.