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Fábula do afeto

Luiz Carlos Merten/ Especial

28 de julho de 2020

Uma doença misteriosa transmitida pelo beijo começa a se espalhar entre os adolescentes. / Foto: Divulgação

Nem com bola de cristal Esmir Filho poderia prever que a série que começou a desenvolver há dois anos chegaria ao público em plena pandemia, estabelecendo uma espécie de macabra coincidência. Boca a Boca estreou no streaming. No fim de semana passado, chegou ao top ten da Netflix. Uma história de jovens, numa pequena cidade. O vírus que se espalha por meio do beijo.

Em março, quando começou o isolamento, estava finalizando, ajustando a cor do sexto episódio, o final. A ideia inicial era falarmos – a série é correalizada com Juliana Rojas – sobre descobertas, desejos, experimentações. Queríamos retratar o mundo jovem de hoje, que é povoado por telas. Esse é o tema, mas aí houve o coronavírus e o olhar sobre a série foi mudando. A epidemia virou ponto de partida e o que agora se vê pode ser outra coisa – como ficam as relações após a pandemia.

Claro que a associação com a covid- 19 é inevitável, mas o comportamento social é padrão e ajusta-se às pandemias anteriores.

A gente pesquisou e identificou um procedimento. Pânico, desconfiança, discriminação e, por se tratar de uma sociedade marcada por diferenças de classes, existem corpos privilegiados. Fomos criando os personagens, as situações. Boca a Boca estabelece um quadro sintomático da vida social.

Tudo isso era ficção, mas foi mudado pela percepção do público e da própria equipe, após a pandemia. Segundo a sinopse da Netflix, o filme é sobre jovens nessa comunidade. Levam a vida dita normal, cada um com seus sonhos, dificuldades, as questões familiares. Com os hormônios a mil, tentam dar vazão a suas necessidades afetivas e sexuais, e aí surge o vírus, que se espalha pelo beijo. Embora tenha o sugestivo nome de Progresso, a cidade é conservadora. Os jovens possuem as ferramentas que as modernas tecnologias oferecem–as muitas telas –, mas a mentalidade do local não acompanha essa modernidade.

Criam-se choques – entre pais e filhos, entre os jovens, entre eles .

A proliferação das redes em Progresso coloca essa questão contemporânea que é o estar juntos em contato físico, que a gente colocou como ficção. Nem de longe imaginávamos que a pandemia iria impor essa distância física. O beijo, como expressão da proximidade desejada, vira pânico, desespero.” E Esmir reflete: “É uma fábula de afeto, mas o afeto não é só instinto, gostar ou não gostar. É uma construção. Vivemos num mundo em que, já antes da pandemia, as pessoas, e os jovens, já eram estimulados a viver vidas separadas, sem ideais coletivos”.

Macunaíma, O Enigma de Kaspar Hauser – cada um por si e Deus contra todos.

A intenção era lançar uma lupa sobre o conservadorismo. Nesses dois anos de gestação e realização do projeto, o conservadorismo avançou muito. É um fenômeno global e o Brasil, que nos interessa, recuou décadas. Todo esse ódio contra negros, mulheres, gays, trans.

Um tema muito forte é o dos corpos privilegiados. O Brasil é campeão mundial de desigualdade. Quem pode o quê. “Achamos importante colocar o tema em discussão.”