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‘Dom’ mistura de thriller com melodrama

19 de junho de 2021

Cena da série ‘Dom’, protagonizada por Gabriel Leone e Flavio Tolezani

Quando trabalhou como fotógrafo para Eduardo Coutinho (1933-2014) nas filmagens de Santa Marta – Duas Semanas no Morro (1987), Breno Silveira passou por um intensivão de geopolítica entrevistando moradores do local, como um tal de Márcio dos Santos, que viria a ficar famoso, nos anos seguintes, no tráfico, sob a alcunha de Marcinho VP. Mais do que um curso de técnicas documentais, a imersão em um mundo bem diferente do que já conhecia deu ao diretor a habilidade de registrar afetos em qualquer jornada social ou antropológica, como se comprova, agora, nos oito episódios da série Dom, disponível na Amazon Prime Vídeo.

Trabalho de maior ousadia da carreira do cineasta e fotógrafo, a mistura de thriller e melodrama está disponível na Amazon Prime, recriando os crimes de Pedro Machado Lomba Neto (1981-2005), o “Bandido Gato”, chamado Pedro Dom. Uma carga de ação e estratégia militar, ligada ao combate às drogas, pontua toda a frenética narrativa. Silveira escreveu essa dramaturgia numa sala de roteiristas combinando talentos de Fabio Mendes, Higia Ikeda, Carolina Neves e Marcelo Vindicatto – e a dirigiu ao lado de Vicente Kubrusly.

Quem viu seu mergulho no universo prisional da série 1 Contra Todos (2016 a 2020) ou seu périplo pela favela em Era Uma Vez…(2008) nota na história de Dom, vivido por Gabriel Leone, um traço autoral – que vem lá da experiência com Coutinho. Mas seu traço autoral se descortina mais forte em outra via: a da paternidade.

“Tive cerca de 12 anos de convivência com o pai do Pedro, Victor, que me contava coisas fortes sobre o filho e sobre a realidade do crime em que ele estava. No fim da vida, ele falava que estava morrendo por uma droga lícita, o cigarro, mas falava da relação com o filho com amor, acreditando que a mídia havia transformado o garoto em um monstro”, disse Silveira, em referência ao pai de Dom, o policial civil aposentado Luiz Victor D. Lomba.

“Não estamos contando mais uma história sobre tráfico, mas sobre a entrada da cocaína no Brasil e como ela modificou o Rio de Janeiro e as famílias afetadas pelo vício. Victor bateu na porta da produtora Conspiração dizendo ter uma história importante para contar. Era a história ímpar de um policial que atuou como infiltrado no combate à droga, mas tinha um filho que se tornou não só um viciado, mas um dos bandidos mais procurados do Rio”, continua o cineasta.

Silveira não quis receber Victor quando ele chegou na sua produtora, cedendo apenas quando notou que o policial não iria desistir. Mas, já no projeto, conseguiu grande empenho de Leone e Flávio Tolezani, escalado para interpretar Victor, em saltos no tempo – da década de 1970 para o fim dos anos 1990, quando Pedro, já viciado, começa a roubar mansões e coberturas luxuosas, e avança até a primeira metade dos anos 2000.