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Conflito de gerações de super-heróis

13 de Maio de 2021

O super-herói tenta convencer Chloe, a filha pequena, de que não se pode machucar os vilões. / Foto: Divulgação

Logo na primeira cena, três crianças brincam de pega-pega no parque. Alcançada pelo adversário, a garotinha se enfurece e reage com força sobrenatural. O pai a repreende. A menina se defende, dizendo que o garoto “é o cara mau, e temos que pegar os caras maus”. Ele contesta, argumentando que a filha deveria se importar com as pessoas, acima de tudo. E completa: “Embora seja fácil machucar pessoas, ficar com raiva e até matá-las, os caras maus também são pessoas e o certo seria detê-los e prendê-los”.

O fato de a menina usar superpoderes para reagir ao garoto e o pai aparecer voando, de capa vermelha, já deixa claro que se trata de nova trama de super-heróis. Contudo, o diálogo inicial mostra também que a série “O legado de Júpiter” pretende inserir a fantasia no contexto social bastante urgente e real deste mundo em que as forças do Estado seguem matando civis em nome da segurança pública.

Lançada na semana passada, a produção da Netflix aproveita a lacuna de grandes estreias de super-heróis famosos para tentar emplacar novos personagens. A trama adapta a história em quadrinhos homônima criada por Mark Millar. Publicada em 2013, essa HQ oferece boa base para a abordagem proposta pelo seriado.

O escocês, de 51 anos, é um dos quadrinistas mais cultuados do mundo, embora criticado por alguns grupos. Dono de seu próprio selo, o Millarworld, Mark já teve outras criações transportadas para a tela. É o caso de Kick-Ass, que deu origem ao filme “Kick-Ass – Quebrando tudo”, de 2010, e Kingsman, que virou trilogia cinematográfica.

Com doses de sarcasmo e violência, as histórias de Millar trazem os heróicos protagonistas em versões mais humanizadas e longe do glamour, explorando o cotidiano corriqueiro deles. Isso ocorre em “O legado de Júpiter”, cujo centro das atenções é Utópico, identidade assumida por Sheldon Sampson, papel do ator Josh Duhamel.

Capaz de voar como o Superman, com quem se assemelha tanto no vestuário quanto na incrível força, ele lidera a União da Justiça. O esquadrão de super-heróis e super-heroínas tem a missão de proteger a Terra (mais especificamente, os Estados Unidos), atuando sob rígido código ético. É expressamente proibido tirar a vida dos oponentes, por mais perigosos que eles sejam, e interferir na sociedade.

Ao mesmo tempo, Utópico é um paizão que curte cozinhar, tomar suas cervejas e preocupado com o futuro dos filhos, como já fica claro na primeira cena. Herdeiros dos superpoderes paternos, Brandon (Andrew Horton) e Chloe (Elena Kampouris) enfrentam problemas ao iniciar a vida adulta.

O rapaz deseja seguir os passos do pai e atua como super-herói em algumas missões. Porém, sente-se pressionado por ainda não estar à altura da missão. É inseguro diante da desconfiança de Utópico, que considera o filho impulsivo demais.

Por sua vez, a garota repudia a obrigação familiar de proteger o mundo da ação dos vilões. Prefere investir na carreira de modelo fotográfico. Chloe não dosa sua rebeldia. Bebe, usa cocaína e tem ásperos embates com o pai quando não consegue evitá-lo no convívio familiar.

Cenas como a de um jantar na residência dos Sampson – que acaba em climão depois de Chloe chegar bêbada e discutir com Sheldon, numa troca de clichês sobre responsabilidades e deveres – são tão ou mais frequentes do que os momentos de ação e de combate.