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Claudette Soares canta Maysa

Por Danilo Casaletti / Especial

17 de outubro de 2020

Claudete lança álbum com música da amiga Maysa. / Foto: Divulgação

Na noite de 30 de agosto de 2018, Claudette Soares já estava pronta para subir ao palco do Teatro Itália, na região central de São Paulo, para fazer uma única apresentação de um show em homenagem à cantora e compositora Maysa (1936-1977) quando seu produtor Thiago Marques Luiz disse duas palavras que costumam colocar em pânico grandes artistas, mesmo depois de décadas de carreira: “vou gravar”. “Eu quase morri do coração”, diz hoje, aos risos, Claudette. Para quem não é músico ou cantor, parece difícil entender. Mas, para eles, show é show e gravação é gravação. O resultado desse “susto” chega agora às plataformas digitais e em CD, no álbum Claudette Soares Canta Maysa, pela gravadora Discobertas.

O medo acabou quando as cortinas abriram e ela, sentada em um banco bem alto ao lado do piano, deu de cara com uma plateia lotada. Quando o trio que acompanhava tocou os primeiros acordes de Demais (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), gravada por Maysa, Claudette já sabia muito bem o que fazer com as 15 canções do roteiro. Em vez de “morrer do coração”, fez renascer um repertório que ela sempre teve vontade de cantar.

Eu estudo muito antes de fazer um trabalho. Uso a noite e a madrugada para decorar as letras. Esse frio na barriga que dá é a responsabilidade que tenho com o público de fazer sempre o melhor. Se é um disco ao vivo, tem que ser perfeito. Tem artista que faz um ao vivo de mentirinha, coloca voz em estúdio depois. Eu não gosto de fazer dessa maneira”, explica a cantora.

Quatro canções escritas por Maysa fazem parte do repertório: Meu Mundo Caiu, grande sucesso de 1958; Resposta; Tema de Simone, de 1971; e Ouça, outro grande hit do segundo LP de Maysa – uma composição de amor próprio, um pensamento que poucas mulheres ousavam externar à época. A direção musical é do pianista Alexandre Vianna, que tem a companhia de Rafael Lourenço na bateria e João Benjamim no baixo acústico

De outros compositores, há músicas como Eu Não Existo Sem Você, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; Eu e a Brisa, de Johnny Alf; Chão de Estrelas, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa; e o bolero La Barca, de Roberto Cantoral. “La Barca foi o único ponto de discordância entre mim e meu produtor. Mas resolvi encarar”, diz a Claudette, pelo fato de a letra ser em espanhol.


Amizade

Claudette e Maysa foram amigas. Conheceram-se nas esfumaçadas boates cariocas que tocavam bossa nova entre o fim dos anos 1950 e o começo dos anos 1960. A amizade se estreitou quando Maysa começou a namorar o jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli (1928-1994), o mesmo que sugeriu que Claudette trouxesse a bossa nova para São Paulo quando o círculo do banquinho e violão ficou restrito a poucos artistas no Rio. Maysa costumava ir ao Juão Sebastião Bar só para ver Claudette cantar Primavera, um de seus sucessos.

A despeito do que falam sobre a personalidade forte de Maysa, Claudette diz que a amiga era meiga e com olhos verdes que ela jamais viu. “Ela era linda, alta, com aqueles olhos enormes. Se eu fosse a Maysa, ficaria tão metida que não olhava na cara de ninguém”, brinca. Claudette tem pouco mais de 1,50 m de altura; Maysa tinha 1,70 m.