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A inesquecível Rebecca

26 de novembro de 2020

Foto: Divulgação

Nova adaptação do romance Rebecca (1938), de Daphne du Maurier, está na Netflix. Conta a mesma história filmada por Hitchcock em 1940. Mas, em cores, não alcança a magia gótica conseguida pelo mestre em sua primeira produção nos Estados Unidos, sob a batuta implacável de David O. Selznick. Na trama, a mocinha pobre, acompanhante de uma ricaça, conhece um milionário mais velho. E, em aparência, irremediavelmente triste. Estão em Montecarlo, no ambiente grã-fino da época. A Netflix teve o bom senso de não trazer a história para os dias atuais. Manteve-o como filme de época.

Para quem não conhece a trama, lá vai um pitaco do seu início. O homem e a mocinha casam-se e, depois da lua de mel, vão para a propriedade dele, uma espécie de castelo inglês chamado Manderley. O homem era viúvo e o local é “assombrado” pela presença de Rebecca, sua primeira mulher, que morreu jovem. Não se trata de uma história de fantasmas convencional. Rebecca manifesta-se pelos objetos que tocou. Mas, sobretudo, pela lembrança deixada nas pessoas. Linda de morrer, simpática, inteligente, cativante, etc., Rebecca tinha todas as qualidades. Tinha os três Bs, segundo uma personagem: “breed, brain, beauty” – linhagem, cérebro, beleza. Daí merecer o subtítulo de “mulher inesquecível” da versão brasileira da obra.

O romance é todo narrado em primeira pessoa pela protagonista. Ela entende bem sua desvantagem no confronto com uma mulher brilhante e que, ainda por cima, morreu jovem. Rebecca não envelhecerá jamais, não será confrontada pelo passar do tempo e por experiências dolorosas trazidas pela vida. Terá, para sempre, a aura da perfeição. A morte a protege de qualquer desgaste. Acontece, no entanto, uma reviravolta radical na trama (sobre a qual não falaremos, claro) e que dá novo sentido à história.

A nova versão de Rebecca é caprichada, porém rotineira. Dirigida por Ben Wheatley, com Lily James como a mocinha que se casa com o milionário viúvo Maxim De Winter (Armie Hammer). A ótima Kristin Scott Thomas faz Mrs. Danvers, a ameaçadora governanta, guardiã feroz da memória de Rebecca. E Sam Riley interpreta Jack Favell, o cafajeste primo da defunta. É uma adaptação correta, bastante fiel ao livro. Mas sem brilho. Vale a pena ver, nem que seja para compará-la com a anterior.

Já a de Hitchcock divide um pouco as opiniões de especialistas. Há quem a tenha na conta de um dos grandes filmes do mestre – o que não era opinião nem mesmo de Hitchcock, que a considerava um trabalho pouco autoral. Outros a consideram uma obra menor no conjunto de uma filmografia que tem obras-primas como Um Corpo que Cai e Janela Indiscreta.

Revista, a versão de 1940 mostra inequívocas marcas registradas do diretor, além da sua clássica aparição em uma cena – esperando vez diante da cabine telefônica ocupada por Favell (George Sanders, na versão de 1940). Hitch tempera com seu humor sardônico várias sequências dessa história tétrica, por exemplo. No mais, o par central, interpretado por Joan Fontaine e Laurence Olivier, parece imbatível.