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A autobiografia de Woody Allen

21 de janeiro de 2021

Woody Allen no Festival de Cannes de 2016, que exibiu fora de competição seu longa Café Society. / Foto: Divulgação

E espero que não tenha sido esta a razão pela qual você comprou este livro.” Estamos na página 162, quase a metade das 328 de Woody Allen: Uma autobiografia (Globo Livros), e o próprio se sai com esta. Bem, neste início de 2021, não é possível que alguém que tenha se deleitado com seus filmes resolva dedicar seu precioso tempo para tentar encontrar algo sobre o relacionamento dele com Soon-Yi, sua mulher desde dezembro de 1997 – casamento às escondidas, em Veneza.

Há quase 29 anos, desde que Mia Farrow descobriu, em cima da lareira, fotos de Polaroid de sua filha adotiva nua na casa de seu então namorado, o relacionamento com a jovem 35 anos mais nova foi devassado pela imprensa. E há quase três décadas Woody Allen, 85 anos, completados em 1º. de dezembro (na verdade, em 30 de novembro, como ele revela no livro, já que seus pais decidiram mudar a data, porque ele veio ao mundo quase à meia-noite), paga caro por ter encontrado, de uma maneira nada ortodoxa, o “amor de sua vida” (palavras dele).

O movimento #MeToo, que explodiu mundo afora em outubro de 2017, implodiu várias carreiras com denúncias de assédio e agressão sexual. O movimento nasceu em decorrência de reportagens publicadas no jornal The New York Times e na revista New Yorker, denunciando o então megaprodutor de Hollywood Harvey Weinstein.

A reportagem da tradicional revista foi escrita por Ronan Farrow, filho biológico de Mia Farrow com Woody Allen. Em 2013, no entanto, a atriz afirmou que Ronan, na verdade, seria filho de Frank Sinatra – o que até hoje não se comprovou.

Voltando a 1992, logo após a descoberta do romance entre Woody Allen e Soon-Yi Prévin, Mia Farrow denunciou Allen de abusar sexualmente de Dylan, uma de suas filhas adotivas, na época, com 7 anos. A Justiça, após longa investigação, concluiu que não havia evidências que sustentassem uma denúncia, e o caso foi encerrado sem acusação contra Allen. Cada qual seguiu sua vida, até 2018, quando Dylan, agora uma mulher na casa dos 30 anos, com quem Allen nunca mais teve contato, foi para a imprensa e reafirmou o abuso.

Pária tóxico” e “ameaça à sociedade” (novamente palavras dele), Allen teve as portas fechadas. Até a publicação da autobiografia foi abortada nos EUA pouco depois de ser anunciada pelo Grupo Editorial Hachette, porque funcionários da editora ameaçaram demissão em massa, caso o projeto seguisse adiante. Em seu país, o livro acabou saindo pela Arcade.

Então, retornando à página 162, a razão para ler a autobiografia de Woody Allen pode não ser o escândalo que marcou o fim de seu casamento com Mia Farrow. Mas não há como falar do cineasta sem abrir grandes espaços para abordar o processo que cancelou, para usar um termo corrente, sua carreira. E ele mesmo dá muita atenção a isso, dedicando quase um terço da biografia ao assunto.

Woody Allen: A Autobiografia. Woody Allen. Tradução: Santiago Nazarian. Globo Livros ( 328 págs.) R$ 49,90 (livro) e R$ 32,90 (e-book)