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A aposta brasileira para o Oscar

20 de novembro de 2020

Documentário sobre Babenco, feito por Bárbara Paz, foi escolhido o representante brasileiro para o Oscar. / Foto: Divulgação

Até agora, nunca deu certo, mas a comissão que escolhe o representante do Brasil para o Oscar tenta pensar com a cabeça da Academia. Quais as chances reais de determinado filme cravar sua indicação? Um é escolhido pelo tema, outro pelo prestígio que integrantes da equipe técnica e artística possam ter em Hollywood. Reunida remotamente (tempos de pandemia), a comissão de 2020 levou três horas para chegar à escolha. O Brasil vai de documentário no Oscar 2021.

Já havia ido em 2020, quando Democracia em Vertigem, de Petra Costa, foi selecionado para concorrer na categoria. O escolhido agora é Babenco – Alguém Tem de Ouvir o Coração e Dizer: Parou, de Bárbara Paz, que concorreu à indicação com outros 18 títulos, incluindo ficções como M-8, de Jeferson De, Marighella, de Wagner Moura, e Casa de Antiguidades, de João Paulo Miranda Maria. Pode não ter sido a primeira vez, mas faz toda diferença saber que a Academia Brasileira de Cinema, que forma a comissão, desta vez prescindiu de pessoas ligadas ao governo.

O filme sobre Babenco levou o prêmio de melhor documentário no Festival de Veneza de 2019 e no Festival de Viña Del Mar, no Chile, em 2020. Bárbara Paz conversa pelo telefone com o Estadão. Está no Rio, filmando com Júlia Rezende. O filme, Porta ao Lado, é sobre dois casais.

A gente deveria ter filmado no primeiro semestre, mas veio o isolamento e a produção parou. Agora estamos trabalhando com muito cuidado, seguindo os protocolos de segurança.” Essa guria, como se diz no Sul, não é mole. Gaúcha de Campo Bom, Bárbara tinha 17 anos quando chegou a São Paulo. Fez teatro infantil, participou da Casa dos Artistas do SBT, foi capa da Playboy e, ao mesmo tempo que tudo isso lhe deu muita projeção – popularidade -, também originou preconceito, como se ela, por ter participado do reality show, não pudesse evoluir como pessoa – e como artista. Bárbara não deixa por menos: “Sou movida pelo desejo de evoluir, tenho sede de conhecimento”.

Ela encontrou Hector Babenco num momento difícil da vida dele. Hector fizera tratamento nos EUA, mas o câncer voltou com força. Ela o assistiu na etapa final – como mulher, amiga, amante. Conversavam longamente sobre a vida, o cinema. “Ele era o primeiro a dizer que éramos dois sobreviventes.” O cineasta morreu em 2016.

Bárbara passou por muitas dificuldades sem perder a garra. Neste ano de pandemia – de suspensão para tanta gente -, não parou de trabalhar. Hector lhe dizia: “Pare de querer viver agradando os outros”. Foi a grande descoberta que ela fez neste ano atípico.

O meu autoral vai me comandar”, anuncia. Juntando determinação com a vontade de aprender/conhecer, Bárbara tem feito muitas coisas. Aprendeu a acreditar mais no seu olhar. “Tenho uma casinha na Bahia e fiquei lá isolada, fiz um material de videoarte que foi muito bacana. Fui a Ouro Preto e fiz um curta que estou finalizando, ATO. Tem a ver com o momento, com o isolamento. Esse movimento para o interior da gente pode levar a descobertas profundas.