Dia a dia

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17 de abril de 2023

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

Aída Curi, vítima de curra – Parte 05 (final)

A defesa recorreu e conseguiu um segundo julgamento em março de 1959. O advogado Romeiro Neto fez alguns questionamentos ao médico legista, o doutor Mário Martins Rodrigues. Foram questionamentos quanto a algumas lesões nos seios de Aída Curi.

Desejava saber se eram marcas de dentadas ou outros tipos de lesões. Por surgirem dúvidas, na época, foi convocado o doutor Raimundo Rodrigues, que era professor em odontologia, um perito, da Faculdade Nacional de Odontologia.

Ele examinou as lesões suspeitas, tirou, em gesso, os modelos dos ferimentos e fez as perícias necessárias. Terminadas as provas em gesso, a segunda fase dos trabalhos seria examinar as arcadas dentárias dos três acusados.O Juiz de Menores pediu que o menor de idade, o Cássio, fosse examinado na própria Faculdade Nacional de Odontologia. Ficou comprovado que as dentadas, no busto de Aída, não eram do menor Cássio, envolvido no crime.

Cássio estava inocente no caso das dentadas. Era preciso, então, examinar as arcadas de Ronaldo e de Antônio, o porteiro. A perícia não ocorreu, pois o juiz deliberou que fosse interrompida. Questionado o juiz, ele informou que se o Ronaldo saiu do prédio às 20h,15min, conforme testemunha constante nos autos e não contestada, sem controversa, ou incontroversa como ele disse, não havia interesse em fazer tal perícia, tal exame.

Considerava provado que o Ronaldo havia, apenas, dado um tapa em Aída Curi, não lhe deu dentadas e nem provocou arranhões com as unhas. Também, não a jogou do alto do prédio. “Bem, se havia dentadas e arranhões, só sobrou o porteiro!”
Ronaldo conseguiu absolvição da acusação de homicídio. Fcou somente com a pena dos dois outros crimes, atentado violento ao pudor e tentativa de estupro, como já vimos no texto anterior.

O porteiro também foi isentado de culpa, ficando o Cássio como o único responsável ou culpado pela morte de Aída Curi. Por ser menor de idade era, portanto, inimputável. Foi encaminhado para o Sistema de Assistência ao Menor (SAM). Dali, ele saiu para prestar o serviço militar. Anos depois, foi acusado de assassinar um vigia de automóveis. Tratou de fugir para o exterior até conseguir que a pena prescrevesse. Consta que, em 1978 ele foi assassinado num incidente e não há maiores explicações. Teria uns 36 anos de idade!

Bem, depois ainda houve um terceiro julgamento. Ronaldo acabou sendo condenado por homicídio simples e mais tentativa de estupro. Pegou seis anos de prisão. Com o promotor Pedro Henrique Miranda recorrendo, a pena subiu para oito anos e nove meses, bem menor que a pena da primeira condenação.

Cumprida a prisão, Ronaldo ganhou sua liberdade. Ele voltaria para o seu estado natal, Estado do Espírito Santo. Ali, ele se tornaria um empresário, não mencionam o ramo e nem uma notícia mais. Aliás, uma ironia, o nome do seu estado: “Espírito Santo”. Nada tem a ver com a sua índole demoníaca. Será que se arrependeu, se regenerou e mudou de vida? Não procuramos notícias a respeito, por enquanto!

A cantora Rita Lee, no final da música “Todas as Mulheres do Mundo” cita o nome de Aída Curi. Na canção de autoria de Ângela Rô Rô, com o título de “Mônica”, ela também é citada.
A Rede Globo de Televisão, em 2004, fez, no programa Linha Direta Justiça, uma apresentação da reconstituição do caso Aída Curi.

Os membros da família dela não gostaram. Entraram com pedido de indenização contra a emissora alegando “uma sinistra notoriedade que por tantos anos os perseguiram (sic)”. Perderam a ação nas instâncias inferiores e também no STF, em 11 de fevereiro de 2021. Tramitando por cerca de 17 anos, tal ação ficou conhecida como “Ação do Direito ao Esquecimento”. Nove ministros votaram contra a ação e um votou a favor. Para a maioria dos ministros, a ação, se aprovada, abriria precedentes para um possível cerceamento do dirieito à informação e da liberdade de imprensa.

Aída Curi tem ruas com o seu nome em vários lugares. Com o nome “Rua Aída Curi, vejamos: no Rio de Janeiro, na Taquara, em Jacarepaguá; em Queimados (RJ), no bairro Jardim Guanabara; em São Gonçalo (RJ), no bairro Raul Veiga e em Ipirá (BA), no centro da cidade. Possivelmente, haja mais ruas.

Por tudo que ocorreu e como aconteceram os julgamentos, será que houve a verdadeira justiça dos homens, mesmo? Que cada um tire suas conclusões ou busque maiores informações. O padre, irmão de Aída Curi, lançou um livro sobre ela. Ainda o tenho!

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO, professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG, ex-professor do ensino comercial com reg. no MEC, formado no curso normal superior pela Unipac. E-mail: luizguilhermewintherdecastro@hotmail.com