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Dia a Dia

Foto: Reprodução.

DÉCIO MARTINS CANÇADO

A escola frente à realidade

Houve uma época em que as escolas, salvo honrosas e honradas exceções, ficaram divididas entre a prática ‘alternativa’ e a ‘conservadora’, influenciadas que foram por tendências e pensamentos ditados por filósofos da educação e pedagogos que, então, vislumbravam ser possível realizar mudanças pedagógicas em um curto espaço de tempo e à revelia da realidade social e econômica.

Aconteceu, então, uma onda libertária no campo educacional e, no Brasil, tivemos o agravante de se registrar a chamada ‘cultura macunaímica’. Explico: essa expressão refere-se ao personagem Macunaíma, mito do “herói sem caráter”, cujo perfil foi desenhado pelo modernista Mário de Andrade. A transgressão, o desrespeito às pessoas, às instituições e às normas estabelecidas, nesse caso, é regra, pois tem pai que, quando o filho conta que transgrediu, que furou a fila, que bateu em alguém, por exemplo, responde: “Legal, você não é um boboca”.

Engana-se quem julgar que isso é passado. Depois do ‘start’ desse processo, com a mídia divulgando a falta de ética e honestidade como coisa natural, com os ‘reallity shows’ mostrando os novos macunaímas da sociedade e dando enormes ‘ibopes’, com tantos exemplos negativos em evidência, na política, nas novelas e até na religião, fica cada vez mais difícil nortear as ações na escola e na família.

Atualmente, a Disciplina tornou-se um tópico de acirrada controvérsia, quando deveria continuar sendo o que sempre foi: uma questão de simples bom senso.
A palavra de ordem para a maioria das instituições que fez a opção por ser ‘liberal’ é que nunca mais quer ouvir falar essa palavra, pois descobriu que conteúdo e disciplina (também conhecida pelo nome de ‘limite’), são fundamentais.

Naquela época, essas escolas eram associadas aos movimentos contra o regime militar e eram pequenas ilhas de liberdade que procuravam proteger as crianças do autoritarismo vigente. Contestadoras e libertárias, as escolas ‘alternativas’ apostavam todas as suas fichas na ‘criatividade’, em oposição à cartilha das escolas tradicionais. Pior, ainda existem pedagogas e professores que não se conscientizaram de que esse modelo está falido e que é necessário e urgente retomar o caminho para a verdadeira educação que a sociedade tanto precisa, especialmente no Brasil.

A expressão ‘Educação liberal’ transformou-se em sinônimo de escola fraca, em que tudo é permitido. “A escola experimental não tinha conteúdo. Ela queria formar indivíduos críticos a partir do nada, então formava uns chatos”, comentou a pedagoga Zélia Cavalcanti.

Hoje, mais preocupadas em formar cidadãos responsáveis do que egos inflados, as escolas veem na vida em sociedade, no respeito pelo outro e na cidadania, o lugar dos limites e o caminho para a realização pessoal das crianças e dos jovens.
A realidade das escolas de hoje nos mostra, entre outras coisas:

1) Que o espaço da brincadeira, da fantasia e da criatividade está inserido na realidade;

2) Que os conteúdos, como Português e Matemática, por exemplo, são saberes obrigatórios em qualquer escola, além de uma formação humanística e ecológica;

3) Que a avaliação, embora ainda embasada em ‘provas’ para os alunos, como exemplo do que terão de enfrentar na vida, já tenta ser aplicada como formas mais contínuas e globais de aferição do aprendizado;

4) Que os ‘limites’ são a base das relações sociais, deixando o mais claro possível as ‘regras do jogo’ para os alunos;

5) Que, em relação às famílias, talvez se proponha a educar também os pais.

Finalmente, fica cada vez mais evidente que os Valores Morais são imprescindíveis em um mundo competitivo, e que a escola deve ser realmente, e definitivamente, o local, após a família, onde se formam indivíduos críticos e capazes, com autonomia para enfrentar o mundo e se realizarem.
Disciplina, Respeito e Solidariedade são valores que fazemos questão de ensinar, pois somente com o aprendizado desses valores, poderemos sonhar com alguma mudança no mundo em que vivemos.

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