Destaques Dia a Dia

Zé Gato

Por ADELMO SOARES LEONEL

17 de outubro de 2020

Era uma propriedade rural escondida pros lado da Vargem Bonita. Pouco mais que um sítio e menos um tiquinho que uma fazenda. A dona, viúva por febre terçã, tinha dois filhos já na idade do batente, porém com personalidades e disposição completamente opostas. O Juca, primogênito, pegava realmente no pesado e, para ele, não existia tempo ruim ou tarefa que não pudesse ser enfrentada, por mais dura ou insalobra se apresentasse.

O pio da coruja e o cantar do curiango já o encontravam no curral, ordenhando um punhado de vaquinhas pé-duro, deixando o leite no ponto de embarque, ouvidos atentos no ronco do caminhão que ali principiava a linha. Curava as bicheiras, dava o trato e, sem necessidade de mando, tocava o rumo para o eito, enxada no ombro, trocando prosa rápida, repartindo o serviço com os dois agregados. Era bater feijão, vigiar (e rezar) pela florada do cafezinho, limpar o rêgo, lavar o chiqueiro etc. Dava gosto ver os pastos roçadinhos, a capineira acanhada mas viçosa na baixa do ribeirão, a tuia entupida de espiga. Mal aparecia os rabos acesos dos primeiros vagalumes, de banho tomado, jantinha caprichada da mãe (ah! aquela carninha amoitada na banha da lata de querosene! ), jogava a canseira do corpo no colchão de crina e ressonava como os justos bíblicos até o Patulé, galo mais esperto do terreiro, entoar sua cantoria despertativa.

O irmão caçula, nem tão caçula assim – diferencinha de 1 ano (a conta de cumprir o resguardo) – bem… este era o retrato configurado e explícito da preguiça. Misto do Jeca Tatu, antes do biotônico, e de alguns chupa-sangue que rolam aí por nossas praças. A história explica: numa prole de vinte rebentos, um é a ovelha negra, numa de dois, um é a ovelha negra e, se filho único, ele é a ovelha negra! Batizado José, ganhou o apelido de Zé Gato, originado na época de principío do beabá na escolinha rural, aos oito anos de idade: de manhã cedo, sete horas, a mãe lhe sacudiu pela terceira vez, tentando acordá-lo. Abriu metade dos olhos adormecidos, escutou o barulhinho de chuva pingando dos beirais da casa, revirou pro canto, se enrodilhou nas cobertas e, em voz sumida e fininha, miou:

-Hoooje nãããoo!

E assim foi crescendo, cultuando o ócio e o nada fazer. Já erado, o maior esforço consistia em corricar a venda, na companhia de outros vagabundos a disputar doses de pinga no jogo de baralho, atazanando a vida do botequeiro em penduras das despesas no prego de São Nunca.

As promessas maternas jamais encontravam um anjo de plantão, mas ela não perdia a fé e tentava diariamente uma tomada de juizo com conselhos e argumentos, rechaçados em farrapos de desculpas:

– Num posso pegá peso, mãe! A sinhora deve si alembrá qui tive caxumba di piqueno e ela inda pode descê pro saco!
– Apanhá laranja? De jeito ninhum! Da úrtima veiz quemei as mão na taturana!
– Esse sor quente pode dá insolação e eu ficá fraco das idéia qui nem o Sinhô lá da Mata do Sino!
– Sigunda fêra, eu juro qui vô ajudá o Juca na panha de café.

A segunda chegava, cobrava-lhe o juramento, esquecido de véspera e até parecia que a cama tinha grude e nem guindaste conseguiria levantar o Zé.

Até que um belo dia, o mano adentra pela casa eufórico, berrando:

– Ô mãe! Óia o qui eu achei hoje de madrugadinha caído na beira da estrada!

E ostentava, sacudindo, um bolsa de couro, recheada até nas tampas de notas graúdas de dinheiro vivo.

– Percurei o dono e neca de pitibiriba! Ninguém perdeu ou sabe di quem é. Bamo isperá uns tempo prá vê si ele aparece. Si num aparecê, é meu di direito!

O prazo estipulado por costume venceu e nada do tal dono reclamar o dinheiro. A mãe aproveitou a deixa e, se achegando no caçula que coçava umas frieiras nos vãos do pé, sentado num tamborete da cozinha, quentando fogo, doutrinou, definitiva:

– Tá veno, Izé? Deus ajuda quem cedo madruga! O Juca aprumô pro serviço junto cum as galinha i viu no qui deu? Deus ajudô i ele topô cum a borsa di cobre! Trata de sigui os exempro dele i quem sabe, ocê tamem num acha um trem ansim! Bebe água limpa os qui chega premêro!
– Ocê tá é bestano, mãe! Si Deus ajuda quem cedo madruga, pru mode qui num ajudô o bobão qui alevantô mais cedo ainda i acabô foi perdeno a borsa?

E continuou a coceira, também definitvo.