Destaques Dia a Dia

Zé Então Tá

POR ADELMO SOARES LEONEL

9 de janeiro de 2021

Década de 60. Algumas fazendas da minha família se concentravam no município de Frei Gaspar, acanhada cidadezinha localizada no leste mineiro, entre Governador Valadares e Teófilo Otoni, onde o leite era entregue. Expulsos da região de Capitólio pelas águas da represa de Furnas, o vovô da Mata e a tiarada lá a oportunidade de fazer os negócios prosperarem. Terras férteis, calor, muita água salobra, capim “colonhão” que encobria um homem a cavalo, matas de boa madeira, ótima procedência, alqueire dobrado e preço barato.

No entanto, enfrentavam problemas com a administração municipal que sempre priorizava o atendimento aos outros fazendeiros na manutenção das estradas deixando as nossas para depois das águas, quando já haviam perdido grande parte da produção leiteira, por absoluta impossibilidade de tráfego. Só queriam mata-burros consertados, patrolas e cascalho … e lhes negavam.

Para reverter este quadro, resolveram em Conselho de Família, “fazer” o próximo prefeito. Como nenhum da turma se dispôs a se lançar candidato, foram a Frei Gaspar para um estudo da situação política, sondagens quanto às possibilidades de cada aspirante à prefeitura, sua acessibilidade, capacidade de voto.

Irrelevando partidos e siglas, se fixaram em um tal de José Severino Praxedes, a quem mandaram recado, convocando-o a uma reunião na fazenda para assuntos do seu interesse (na verdade, não o conheciam e a intenção era sabatiná- lo) para daí a três dias, às 18 horas. Este tempo seria suficiente aos preparativos táticos como ajuntar a parentada e vizinhos, agendar a reunião, organizar um questionário avaliativo, mostrar-lhe as dificuldades, levantar as disponibilidades financeiras para a briga eleitoral, promover um regabofe etc, etc e tal.

Tudo pronto e a contento, colocaram uma comissão de recepção na grande varanda da sede principal para as boas vindas a tão ilustre visitante e futuro mandatário, com sua comitiva.. Pouco antes da hora aprazada, foi detectada pequena nuvem de poeira de cavaleiros pelos lados que vinham da cidade. Expectativa aumentando, se frustraram ao deparar apenas um casal e um menino montados num burro bem apessoado e um par de éguas. Chegaram junto à cancela do jardim, apeando um baiano com chapéu de couro, camisa listada, calça de brim caqui e botinas lustrosas, se dirigiu ao mais próximo e surpreendeu a todos:

– Prazer. Zé Praxedes.

Passado o primeiro susto, recompostos, efusivamente o cumprimentaram com abraços, elogios aos animais, ao tamanho do menino, à simpatia da consorte, conduzindo-os para dentro, em procissão. Os acertos foram fáceis e tranquilos. O homem era bom, honesto e confiável. Somente quando inquirido se sabia falar em público, respondeu:

– De orêia (improviso) não! Mas eu tenho primário e leio razoável, ó xente!

Ninguém esperava nenhum Juscelino mas, quando ele leu uma lista de nomes que o apoiavam, notaram uma acentuada gagueira e fanhice. Pela qualidade da lista e mediocridade do outro candidato, se animaram. No entanto, apenas por precaução, acordaram que seria realizado somente um comício de arromba, como jamais se vira em Frei Gaspar, uma semana antes da eleição.

A campanha desenrolou-se a contento. Visitando casa por casa, doando um pé do par de gomeira, metade da nota de mil, latas de banha de porco, prometendo mais chuvas, transferindo títulos de eleitor, pagando pinga nos botecos, organizando transportes e outras providências nem sempre muito éticas conhecidas do leitor, eis que chega a noite do grande comício.
O Zé encomendou um discurso a um professor de português de Teófilo Otoni, exigindo vinte minutos de palavras em letras grandes.

Palanque armado, duas cornetas de alto-falantes (suficientes para a cidade toda), fogos de artifício, faixas, bandeiras, um cantor de boleros e sambas-canções, arregimentado num circo próximo, um deputado federal (amigo da família), dois prefeitos vizinhos, candidatos a vereador, um tocador de violão e um papagaio que cantava o comecinho do hino nacional.

A oratória se iniciou com os candidatos à vereança, intermediados por uma música do Amado Batista e duas do Waldick Soriano. Apoio incondicional dos prefeitos, brilhantismo do deputado, chega o grande final e o “Doutor” José Severino Praxedes é pomposamente anunciado. Empertigado dentro do terno preto, ajeita o colarinho e se encosta no microfone, suando frio e tremendo, levanta os dois braços e grita:

– Povo de Frei Gaspar!

Enfia a mão no bolso interno do paletó em busca do discurso e, surpreso, não acha nada. Quem sabe no outro? Nada também! Repete:

– Povo de Frei Gaspar!

Nos das calças, só o lenço, a carteira e o pente. Expectativa popular, mal estar no palanque, desespero no Zé. Silêncio total. O tio Deusmar cochichou lá de trás:

– Fala qualquer coisa da sua própria lavra!

Com uma névoa à frente dos olhos, completamente fora de si, volta ao microfone, ergue os polegares de ambas as mãos, braços esticados em cima:

– Povo de Frei Gaspar!…Povo de Frei Gaspar!… Então tá, num tá?

O povaréu lhe imita o gesto, polegares aprumados e responde no mesmo tom, eufórico:

– Tááá!!!

Foguetório, música, barulheira, sucesso absoluto. A partir deste momento, o gesto virou símbolo. Quando o eleitor, inquirido em quem iria votar, retrucava, sorridente:

– No Zé Então Tá!

Os companheiros de campanha, passando por qualquer ajuntamento de pessoas, levantavam os polegares e:

– Tá?

A turma:

– Tá! Tá! Tá!

Ganhou de lavada. 916 votos a cento e poucos do adversário. Não se perdeu uma gota de leite naquele quatro anos de mandato.