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Virtudes e méritos do desembargador Ranulfo

POR JAIRO ROBERTO DA SILVA

7 de agosto de 2020

Faleceu na quinta-feira, trinta de julho de dois mil e vinte, o amigo Ranulfo de Melo Freire: amigo da Justiça, amigo da Democracia, amigo da Liberdade, amigo da Faculdade de Direito de Passos e com muito orgulho, meu amigo. Conheci Ranulfo em 1983 quando o saudei na sessão solene da Câmara Municipal, em sua homenagem. Acabara de aposentar-se após mais de trinta anos consagrados à magistratura e à cultura jurídica.

Inconformismo, humildade e sabedoria foram os pilares em que o Desembargador Ranulfo construiu sua longa e bela trajetória de vida. Não se conformou com a opressão dos poderosos e nem se quedou face às injustas provocações do totalitarismo, desde os tempos da UNE, como estudante. Por detrás e à frente da figura franzina do estudante Ranulfo despontava um Ranulfo rebelde, amante da liberdade e contrário às forças opressoras.

Seu acendrado amor pelo conhecimento e pela cultura podem ser vistos com clareza na sua extraordinária dedicação à Faculdade de Direito de Passos, desde o seu nascedouro em 1995. A presença de expoentes da cultura jurídica pátria, como Cândido Dinamarco, Alberto Silva Franco, José Carlos Dias, Adauto Suannes e de tantos outros nas semanas jurídicas da Fadipa só foi possível graças ao empenho e prestígio do Doutor Ranulfo.

O reconhecimento da comunidade acadêmica se materializou na concessão do título de “Doutor Honoris Causa” ao ilustre jurista e à atribuição de seu nome ao Escritório Escola Jurídico – Social e ao Centro de Estudos “Desembargador Ranulfo de Melo Freire” da Faculdade de Direito de Passos.
Simplicidade e humildade emolduravam o caráter do Doutor Ranulfo que soube ser simples sem ser medíocre e ser humilde sem ser submisso. Fazia questão de ser chamado “mineiro da Ventania” e via na mineiridade a medida certa de suas vestes. Chamá-lo de desembargador era quase uma ofensa. A formalidade gera distância, entendia Ranulfo.

Conhecimento como sinônimo de cultura e sabedoria não são virtudes díspares e podem ser vistas na pequena história que ouvi de alguém ligado ao Doutor Ranulfo: “Professor de uma das turmas da FGV (Fundação Getúlio Vargas), uma das mais conceituadas instituições de ensino do país, lecionando para uma de suas turmas, Ranulfo foi instado a continuar como professor da classe no ano seguinte. Feita a comunicação do pedido dos alunos pela direção, Ranulfo solicitou tempo para resposta. Passados alguns dias, Ranulfo se dirige à sala do diretor e pede sua demissão. Moral da história: era chegada a hora de parar, enquanto gozava da simpatia e da boa avaliação dos alunos. Somente uma pessoa sábia sabe avaliar o momento exato de tomar decisões.

Enfim: Inconformismo, humildade, cultura e sabedoria são virtudes do cidadão Ranulfo e razões de seu merecido mérito.

JAIRO ROBERTO DA SILVA, advogado e 1º Diretor da Faculdade de Direito de Passos.